Ex-enteada diz que era agredida por Jairinho e que se sentiu culpada pela morte Henry Borel

Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, ex-enteada de Jairinho antes mesmo do caso Henry Borel, disse ao júri que se sentiu culpada pela morte do menino, mesmo sem tê-lo conhecido. Ela afirmou que, quando era criança, foi agredida pelo ex-vereador com socos na cabeça, apertões no braço e afogamentos em piscinas, sempre quando ficava sozinha com ele.
Hoje, com 18 anos, Kaylane é a primeira testemunha ouvida nesta quinta-feira, no quarto dia do julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e de Monique Medeiros. O depoimento ainda está em andamento no Tribunal de Justiça do Rio.
Kaylane é filha de Natasha de Oliveira Machado, ex-namorada de Jairinho. Antes de começar a falar, ela pediu para não prestar depoimento na frente dos réus. A juíza Elizabeth Machado Louro consultou as defesas, que aceitaram o pedido.
No depoimento, Kaylane contou que conviveu com Jairinho por cerca de três anos, quando tinha menos de quatro anos de idade. Ela disse que não morava com ele, mas o via em festas de família, restaurantes e passeios.
A testemunha afirmou que Jairinho era visto pela família como uma pessoa calma, simpática e prestativa. Mas, segundo ela, quando os dois ficavam sozinhos, o comportamento dele mudava. Kaylane disse que o ex-vereador dava “mocas”, que seriam socos na cabeça, apertava o braço dela com força e a machucava sem motivo aparente.
Ela também relatou que Jairinho a levava para locais que hoje ela entende que poderiam ser motéis, embora não tenha certeza por causa da pouca idade. Kaylane afirmou que não sofreu violência sexual, mas disse que, nesses lugares, o ex-vereador a levava para piscinas e a afogava, empurrando a criança para o fundo com o pé.
Em outro episódio, Kaylane contou que machucou o braço e precisou usar gesso. Segundo ela, Jairinho orientou que dissesse que a lesão tinha acontecido enquanto os dois brincavam de jiu-jitsu.
A jovem afirmou que era pressionada a ficar em silêncio. De acordo com o depoimento, Jairinho dizia que, se ela contasse à mãe, Natasha ficaria triste, terminaria o relacionamento com ele, e a culpa seria da própria Kaylane.
Kaylane também disse que nunca gostou de ouvir falar de Jairinho. Como morava em Bangu, reduto eleitoral do ex-vereador e da família dele, ela contou que se sentia mal quando ouvia sobre campanhas ou vitórias eleitorais.
Ao responder ao promotor, afirmou que Jairinho tinha um carro branco e que chegava a passar mal e vomitar ao ver um veículo parecido. A jovem disse que só contou parte do que viveu à avó cerca de quatro anos depois do fim do relacionamento da mãe com Jairinho. Segundo ela, isso aconteceu enquanto assistia a um programa de TV sobre crianças vítimas de violência praticada por adultos.
A morte de Henry trouxe de volta essas lembranças. Kaylane afirmou que se sentiu culpada porque passou a pensar que, se tivesse denunciado Jairinho antes, ele poderia ter sido punido e Henry talvez não tivesse morrido.
O depoimento é considerado importante para a acusação porque pode reforçar a tese de que Jairinho teria um histórico de agressões contra filhos de mulheres com quem se relacionava.
Henry Borel tinha quatro anos quando morreu, em março de 2021, depois de ser levado a um hospital na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Jairinho e Monique Medeiros são julgados por homicídio qualificado, tortura, coação no curso do processo, fraude processual e falsidade ideológica.



