Decisão dos EUA sobre PCC e CV gera cautela no mercado; Ibovespa recua e dólar sobe

Apesar das preocupações, a reação inicial do mercado nesta sexta-feira (29) foi moderada.
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, chegou a abrir praticamente estável, com leve queda de 0,01%, aos 175 mil pontos, mas já passou a ampliar perdas e renovou a mínima do dia com recuo de -1,09%, aos 173 mil pontos.
Já o dólar operava em alta de 0,34% por volta das 10h, cotado a R$ 5,05. Até o momento, os movimentos indicam cautela dos investidores, mas sem sinais de turbulência mais intensa nos mercados.
Bancos e instituições financeiras podem enfrentar mais custos e regras
Relatórios jurídicos distribuídos a bancos e instituições financeiras apontam para a possibilidade de aumento de custos, maior rigor regulatório e elevação dos riscos para empresas que mantêm relações comerciais com o sistema financeiro americano.
Segundo informações reveladas pelo jornal Valor Econômico, dois pareceres — um elaborado por um escritório brasileiro e outro por uma banca americana — começaram a circular entre instituições financeiras ainda na noite de quinta-feira. Os documentos alertam para possíveis impactos sobre bancos, empresas de infraestrutura, energia, logística, mineração, agronegócio e exportadores.
A preocupação está relacionada ao alcance da legislação americana. A partir do momento em que PCC e CV passam a ser enquadrados como organizações terroristas, empresas e instituições que mantenham relações, mesmo indiretas, com estruturas ligadas às facções podem ser alvo de sanções, investigações e restrições nos Estados Unidos.
Os pareceres destacam que o efeito da medida vai além das fronteiras americanas. De acordo com a análise citada pelo Valor, operações realizadas em dólar, transações que passem pelo sistema financeiro dos Estados Unidos ou relações com bancos correspondentes americanos podem sujeitar instituições brasileiras a multas, bloqueio de recursos e outras penalidades.
Um dos documentos faz referência ao caso do México, onde a classificação de cartéis como organizações terroristas levou ao endurecimento de controles internos, auditorias em cadeias produtivas e redução do ritmo de investimentos em alguns setores.
Fontes do mercado financeiro ouvidas pelo jornal O Globo avaliam que não há expectativa de uma fuga imediata de investimentos estrangeiros do Brasil. A preocupação, porém, é com o aumento do chamado escrutínio regulatório e com regras mais rígidas de compliance.
Na prática, empresas e investidores tendem a ampliar mecanismos de verificação para evitar qualquer vínculo, ainda que involuntário, com negócios ou pessoas eventualmente ligados às facções criminosas.
O receio ganhou força após operações recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal apontarem a infiltração do crime organizado em diferentes setores da economia formal, incluindo combustíveis, fintechs, fundos imobiliários e empresas de serviços financeiros.
Especialistas também alertam para possíveis impactos reputacionais. A avaliação é que a nova classificação americana pode aumentar a cautela de empresas estrangeiras ao fazer negócios no Brasil, principalmente em setores onde investigações recentes apontaram tentativas de infiltração do crime organizado.
Segundo os documentos obtidos pelo Valor Econômico, a tendência é de reforço nos controles sobre movimentações em espécie, remessas internacionais, estruturas societárias complexas e identificação dos verdadeiros controladores de empresas.



