BYD quer cotas de isenção de impostos, contrariando outras montadoras chinesas e nacionais

A associação das montadoras que produzem veículos no Brasil pediu que o governo Lula mantenha o cronograma atual para a retomada do Imposto de Importação de carros eletrificados e rejeite uma demanda da montadora BYD por cotas de isenção da tarifa. O episódio representa mais uma queda de braços entre a empresa chinesa e a Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. O pedido da BYD, porém, não é endossado pelas outras montadoras chinesas que produzem no Brasil.
Nos últimos 30 dias, a BYD teve reuniões com representantes do governo para que a alta do Imposto de Importação sobre veículos eletrificados seja revista. Uma reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex) marcada para a próxima terça-feira pode selar o fim dessa disputa bilionária.
O primeiro encontro foi em 20 de maio, no Palácio do Planalto, com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Estiveram presentes a presidente da BYD Brasil, Tyler Li, outros dois executivos da empresa, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e o secretário de desenvolvimento industrial, inovação, comércio e serviços, Uallace Moreira.
Menos de um mês de pois, em 15 de junho, a reunião foi na sede do BNDES, em São Paulo. Desta vez, contou com o Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Fernando Elias Rosa (que sucedeu Alckmin no cargo), a secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior, Juliana Volpi e os mesmos empresários.
No centro da disputa está um imposto criado para estimular que as montadoras invistam na produção local de carros. Apesar de ter investido mais de R$ 5 bilhões numa fábrica em Camaçari (BA), a BYD ainda importa kits de peças fabricadas na China para apenas montar os carros no Brasil.
Em novembro de 2023, o governo federal estabeleceu um cronograma para recompor progressivamente o IPI dos eletrificados importados até 35%. As regras previam cotas de isenção da tarifa, que já se esgotaram. Conforme o prazo atual, as montadoras como a BYD passariam a pagar a tarifa cheia em parte desses carros já no mês de julho. O restante será tarifado em janeiro de 2027.
À CBN, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, afirma que mudar o cronograma atual ou criar novas cotas de isenção representaria um desequilíbrio na concorrência.
“Se, eventualmente, o governo decidir pela imprevisibilidade, pela insegurança jurídica, isso traz efeitos nefastos. São mais de 140 bilhões de reais investidos no país no novo portfólio de produtos com as novas tecnologias. E o incentivo, quando o governo traz uma medida desindustrializante como essa, não é produzir localmente, é simplesmente importar. Nós estamos colocando em risco a indústria brasileira”.
A Anfavea argumenta que novas isenções representariam uso de recursos públicos nacionais para estimular investimentos em produção no exterior.
A posição da BYD também não reflete o desejo das outras montadoras chinesas que começaram a produzir localmente nos últimos meses. Em nota enviada à CBN, a GWM afirmou não ter “nenhum pleito ou mesmo interesse na mudança das regras estabelecidas” e que “todo o planejamento desse ano foi feito em cima do cronograma já estabelecido pelo governo”. A empresa, que produz carros no interior de São Paulo e vai inaugurar uma nova linha de produção nas próximas semanas, destacou que já fabricou 12 mil carros localmente e deve chegar a 30 mil até o final do ano. A produção conta com etapas nacionalizadas, como soldagem e pintura.
Já a Geely, que formou sociedade com a francesa Renault para produzir carros no Paraná, informou que “apoia a posição da Anfavea” com relação à recomposição do IPI.
Dados da associação que reúne as fabricantes que importam carros pro Brasil mostram que aumentou a quantidade de carros importados prontos ou parcialmente desmontados pro país nos primeiros meses deste ano. A BYD é responsável por 8 em cada 10 carros dessa modalidade no país. Nos cinco primeiros meses deste ano, a montadora importou 41.301 unidades, contra menos de 40 mil no mesmo período do ano passado.
Questionada, a BYD não quis se posicionar sobre o assunto.



