Criadora de Girls fala sobre agressividade de Adam Driver e set tóxico no livro “Doente de Fama”

‘É fácil arruinar a própria vida quando ela parece uma simulação’, conta Lena Dunham, roteirista, diretora e atriz, em seu novo livro de memórias, ‘Doente de Fama’, lançado nesta segunda-feira (24) no Brasil pela Editora Record. Na obra, Lena Dunham conta em detalhes os bastidores da vida profissional, que virou de cabeça para baixo com a série ‘Girls’, lançada em 2012 pela HBO, quando ela tinha apenas 25 anos. O projeto começou a ser desenvolvido em 2010, quando ela era ainda mais jovem.
Ao criar uma série que retratava muito da própria vida e se descobrir enquanto mulher adulta nos holofotes, aos vinte e poucos anos, Lena Dunham passou a ter uma vida intensa e problemática. Entre ansiolíticos, comentários misóginos do público sobre corpo e aparência, problemas graves de saúde e relações tóxicas — inclusive com o colega de cena Adam Driver —, a estrela de Girls traz um relato sincero no livro que escreveu durante a última década, tempo em que passou grande parte doente.
Lena Dunham queria enxergar o que ela vivia nas produções audiovisuais. Na primeira reunião com a HBO, interessada em um piloto da série que viria a se chamar ‘Girls’, ela disse que queria ver as amigas na TV. No início dos 20 anos, a realidade ainda não era tão glamourosa quanto a mostrada em ‘Sex and the City’, série que ela tinha como referência no retrato da vida feminina em Nova York. Ela queria salários mal pagos, meninas tentando entender o que é a vida e relações mais abstratas.
Série ‘Girls’ — Foto: Divulgação
A comentarista da CBN Paula Jacob, crítica, pesquisadora e professora de cinema, com especialização em Semiótica Psicanalítica e mestranda em Comunicação e Semiótica, ambos pela PUC-SP, aponta que, até hoje, é incomum ver, na indústria do cinema, uma mulher encarregada de tantos papéis em uma produção.
‘O acúmulo de funções é totalmente incomum. Até hoje, os projetos que são dados a mulheres – inclusive mais velhas, com mais experiência que a Lena – não tem toda essa autonomia que ela teve para fazer Girls. O que eu acho que aconteceu foi aquela coisa de você juntar a sede com a vontade de beber, sabe? Porque a HBO estava precisando de um projeto para rejuvenescer o público do canal, não dava mais para eles sustentarem uma audiência fazendo reprises de Sex and the City, então eles estavam precisando desse público. E a Lena era uma garota super antenada com o que estava acontecendo com os jovens, ela tinha uma visão que esses executivos do canal não tinham. Ela tinha ali um produto, uma visão de mundo, uma sensibilidade de mundo, que esses executivos não estavam tendo acesso. A série, depois que foi lançada, continuou sendo renovada porque tinha público. Esse grupo de pessoas que é muito fã até hoje, a série também reverbera até hoje.’
Aos 40 anos, no entanto, Dunham reconhece que a fama fez com que ela ficasse doente de diferentes maneiras.
Na contracapa do novo livro, há um trecho em que ela conta para a tia que estava nervosa com o lançamento da obra porque dizia coisas pesadas que os pais não sabiam. A tia relembra que a avó de Dunham a viu pelada na TV aos 96 anos.
O comportamento agressivo de Adam Driver
No set de gravação, as relações eram confusas. A parceira de trabalho — que virou melhor amiga por um tempo —, Jenni Konner, era inconstante para Dunham. Não mais do que o ator Adam Driver, que ofereceu alguns momentos de carinho a Lena, mas que também arremessou uma cadeira na direção dela durante um ensaio. O ator é retratado como uma pessoa raivosa e controversa.
Lena Dunham e Adam Driver em Girls — Foto: Divulgação
‘Eu passava uma quantidade desproporcional de tempo me perguntando se Adam gostava de mim. Ele às vezes era explosivo e verbalmente agressivo, condescendente e fisicamente intimidador.’ – trecho de Doente de Fama
Quando a obra foi lançada nos Estados Unidos, com o título ‘Famesick’, em abril deste ano, o comportamento de Adam Driver retratado na narrativa se destacou entre os leitores.
Para o editor de não ficção da Record, Lucas Telles, era importante trazer o livro para os leitores brasileiros o mais rápido possível por causa do impacto da obra.
‘Pelo conteúdo do livro a gente logo entendeu que ele teria grande repercussão assim que ele fosse lançado. Foi por isso que a gente decidiu que seria bastante importante que leitores brasileiros tivessem a oportunidade de ler o livro bem próximo à publicação do original. Esse é o segundo livro de memórias da Lena Dunham e ela vem aqui muito mais madura, tanto no conteúdo do livro quanto pelo formato mesmo da escrita. Ao longo da carreira, a Lena sempre foi muito aberta em relação a todos os problemas de saúde que ela enfrentou e dificuldades em diferentes áreas, mas nesse livro ela vai realmente numa camada além. É impressionante como ela não tem filtros para falar do que quer que seja, das suas próprias experiências, e isso deixa o texto bastante rico. Ela de fato tem uma voz importantíssima para registrar a experiência da vida millennial, isso fica claro no livro, mas o curioso também é ver que ela fala com outras gerações.’
Problemas de saúde e o ódio nas redes sociais
A inserção no mundo audiovisual e as vivências pessoais — que muitas vezes se tornaram material de roteiro — abriram as portas de Dunham para os ansiolíticos. Na véspera do início definitivo das gravações de Girls, ela tomou seu primeiro clonazepam. E também o segundo. Era só o início.
Apesar do retorno positivo da série e do reconhecimento na indústria, Lena se colocava para baixo consumindo obsessivamente comentários maldosos sobre a sua aparência, seus gostos e qualquer coisa que fazia nas redes sociais.
A saúde mental se misturava com a saúde física. Uma estava ligada à outra, embora nem sempre fosse simples perceber. Em pouco mais de 400 páginas, ela conta sobre episódios dolorosos de saúde: um tímpano perfurado, dores crônicas, mais de dez cirurgias para tentar resolver o problema de endometriose e, depois de muita insistência, uma histerectomia.
Depois da retirada do útero e do diagnóstico da Síndrome de Ehlers-Danlos (SED), ela pôde ir para a reabilitação cuidar do vício em clonazepam, que se camuflou em meio a tantos problemas.
Em uma entrevista ao The Interview, podcast do The New York Times, durante o período de lançamento de ‘Famesick’ nos Estados Unidos, Lena Dunham conta que, de certa forma, a relação que mantinha com os comentários de ódio nas redes era parecida com as relações amorosas abusivas que a aprisionavam. E ela se pergunta se escrever um livro desenterrando tudo isso não seria mais um capítulo desse ciclo.



