'Enorme impacto para o Brasil', diz especialista sobre classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA

O assunto voltou à tona após o encontro de Flávio Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, na última terça-feira (26). Segundo Flávio, o objetivo da conversa foi justamente falar da classificação sobre terrorismo e facções. Ainda, o senador disse que, se eleito, fará acordos com qualquer país que queira combater o crime organizado.
Três semanas antes, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esteve em Washington. Segundo interlocutores do governo, Lula tentou evitar o movimento americano.
Em entrevista ao Ponto Final CBN, Maurício Santoro, cientista político, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos da Marinha, classificou a notícia como de “enorme impacto para o Brasil”:
“Tanto em questões de cooperação internacional, de segurança pública, quanto também pelas consequências que traz para a disputa eleitoral no Brasil, seja pela disputa pela Presidência da República, nas corridas pelo Congresso Nacional, nos governos estaduais… Terá muita repercussão e, é claro, é uma medida que favorece bastante a oposição. No quadro político que a gente tem hoje aqui no Brasil, são os políticos oposicionistas que vêm defendendo essa classificação de terroristas para as facções do crime organizado brasileiro”, disse.
Maurício explica que, na prática, há duas grandes consequências com o anúncio americano:
“A primeira delas é que os é muito difícil que as forças armadas dos Estados Unidos se envolvam em operações de segurança pública, uma legislação muito diferente daquela que a gente tem no Brasil, onde a atuação dos militares é normal. Uma das poucas exceções é exatamente o combate ao terrorismo. Então, classificar Comando Vermelho e PCC como grupo terroristas, abre a possibilidade de que os militares americanos atuem diretamente contra esses grupos. A segunda consequência é que essa classificação de organização terrorista abre também uma enorme caixa de ferramentas em termos de sanções internacionais, de bloqueios de contas. Então, tudo isso pode afetar muito, inclusive empresas brasileiras que de alguma maneira estejam ligadas nesses braços financeiros das facções”, explica.
Após as reuniões com Lula e Flávio Bolsonaro, o cientista político avalia o bastidor da política americana.
“É mais uma manifestação daquele velho provérbio: ‘Amigos, amigos; negócios à parte’. Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, de fato, conseguiram construir aos trancos e barrancos uma relação pessoal marcada por um certo nível de cordialidade, de respeito mútuo. Mas, mesmo com essa relação pessoal positiva, existem determinados interesses do governo Trump que vão muito além das inclinações pessoais do presidente. E principalmente o grupo em torno do secretário de Estado, que tem uma agenda muito forte para a América Latina, de combater governo de esquerda, na Venezuela, em Cuba. E o Brasil hoje é uma exceção dentro do cone sul. O Brasil e o Uruguai são os únicos dois governos da região que tem presidentes progressistas que não estão sintonizados com a agenda política de Donald Trump. Então, essa é a possibilidade de uma vitória conservadora nas eleições brasileiras, de ter um presidente do Brasil na mesma agenda que o presidente dos Estados Unidos, é algo muito sedutor para o governo Trump. Não é de se espantar que a administração Trump tenha recorrido a esse tipo de ferramenta, que aliás está plenamente também de acordo com aquilo que o Trump já havia feito com relação à Venezuela, ao México, América Central, esse tipo de classificação para cartéis do crime organizado de outros países latino-americanos”, explica.



