Geração Z quer mais que memes e trends para escolher seu candidato

Quem diria que dancinhas, memes e vídeos de poucos segundos iriam virar estratégia de campanha para tentar conquistar o voto da geração Z numa eleição presidencial?
Em 2026, essa disputa acontece principalmente nas redes sociais e mira um grupo numeroso: 19 milhões de eleitores que têm entre 16 e 24 anos. Para se ter uma ideia, uma em cada oito pessoas aptas a votar é da geração Z.
E conquistar esse público exige mais do que só copiar a linguagem que faz sucesso na internet. Os estudantes Anderson Teles, de 20 anos, e Letícia Arruda, de 16, enxergam uma dificuldade dos políticos mais tradicionais em conversar com jovens como eles. Na opinião dos dois, a autenticidade faz diferença nessa aproximação.
“Eu acho que os políticos não conseguem conversar tão bem assim com a geração Z porque têm uma visão muito fechada sobre o pensamento do jovem e do adolescente. Por sermos novos, eles acham que não temos direito de opinar sobre a política em si. Não adianta chegar nas entrevistas e falar que vai fazer isso ou aquilo, mas nunca ter vidido uma coisa que condiz com o que ele está falando”, diz Letícia
“Por sermos novos, eles acham que não temos direito de opinar sobre a política”
“Tem alguns candidatos que já perceberam que precisam entrar em pautas jovens ou em pautas que são virais nas redes sociais para se comunicar. Eu acredito que o que faz parecer um candidato autêntico é se ele de fato vive o que está pregando”, opina Anderson.
Essa cobrança por uma comunicação clara e que transmita sinceridade também aparece na análise da doutora em Ciências da Informação e especialista em comportamento geracional Thaís Giuliani. Para ela, qualquer sinal de discurso artificial, construído ou treinado, não gera confiança entre os mais jovens.
“A essência da geração Z acaba sendo a mesma, o que muda nessas variáveis é a potencialização de algumas características. Por exemplo, quando a gente fala da preocupação econômica, naturalmente os jovens de nível socioeconômico mais baixo vão ser influenciados por isso. Às vezes se fala que ‘a geração Z só se preocupa com a questão social’, mas não! Ela tem uma preocupação também com a questão econômica do futuro. A criação influencia muito em determinados comportamentos. A geração Z tende a votar em quem vai se comunicar de uma forma clara. Naturalmente, os jovens vão rejeitar discursos longos, uma formalidade excessiva, uma comunicação muito lenta, qualquer sinal de artificialidade. Um discurso bonito que, na prática, não se consiga observar na vida real vai gerar uma crise de confiança”, pontua.
Quais as estratégias dos presidenciáveis nas redes?
Desde antes de a campanha começar, os líderes das últimas pesquisas Datafolha e Quaest já tentam conversar com esse público. Uma das apostas do presidente Lula, do PT, que tenta a reeleição, é o Lulaverso. O perfil foi criado ainda na campanha de 2022 e mistura memes, vídeos rápidos, provocações aos adversários e referências da cultura digital, como o grupo sul-coreano BTS.
Nesse ano, o jingle oficial da campanha do petista é um rap, estilo musical com grande adesão entre os jovens.
Já Flávio Bolsonaro, do PL, tem investido numa comunicação com vídeos curtos. Ele já apareceu fazendo dancinhas e gravou ao lado de influenciadores. A campanha mistura esse formato com elementos já conhecidos do bolsonarismo, como referências à fé e à figura do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Já Renan Santos, do Missão, tenta ir ainda mais longe nessa identificação. O candidato já chamou a legenda de “partido da geração Z” e vem investindo numa comunicação baseada em humor, provocações e confronto político.
O cientista político Felipe Borba, especialista em propaganda política, explicou que as campanhas já adaptam a mensagem de acordo com a rede social e com o público predominante em cada uma delas.
“Nem toda mensagem aparece igualmente em todas as redes sociais. Por exemplo, o Facebook pega um eleitorado um pouco mais velho, enquanto o Instagram e TikTok pegam um eleitorado mais jovem. [Nessas redes] eles aparecem dançando, tem um conteúdo assim mais leve… já é uma uma estratégia que eles usam pra pegar esse público jovem que assiste pouco televisão e escuta pouco o noticiário”, explica.
Mais que dancinhas e memes
No mundo dos algoritmos, uma coisa é desejar falar com os mais jovens, outra coisa é conseguir… Muitos dos conteúdos produzidos acabam chegando aos jovens que já acompanham determinados candidatos ou acompanham política com mais frequência. “Furar a bolha” será, certamente, um dos principais desafios das equipes de comunicação das campanhas.
O estudante Arthur Gomes tem 18 anos e vai votar para presidente pela primeira vez. Apesar de passar bastante tempo no TikTok e no Instagram, nenhum político conseguiu chamar a atenção dele até agora.
“Eu sei que eles estão tentando fazer isso, principalmente no TikTok e no Instagram. Mas sinceramente, eu não tenho visto muitos [políticos]. Pelo menos as pessoas que eu que eu conheço não estão compartilhando. Eu passo bastante tempo nas redes sociais, mas não lembro de ter visto uma campanha de algum candidato que realmente tenha me chamado a atenção. Eu acho que eles precisariam falar de alguma coisa que realmente faz parte da vida dos jovens: emprego, educação, faculdade, segurança, custo de vida. Explicar o que eles pretendem fazer de maneira simples”, afirma.
“Eu acho que eles precisariam falar de alguma coisa que realmente faz parte da vida dos jovens”
No fim, falar a língua da geração Z pode ajudar a abrir a conversa. Mas, pra conquistar o voto, os jovens ouvidos pela reportagem deixam claro: querem muito mais do que dancinha ou meme. Para eles, é preciso que o candidato apresente uma perspectiva de vida melhor.



