Vencedora do Camões, Ana Paula Tavares diz na Flip que ainda precisamos da utopia

Ana Paula Tavares, vencedora do mais importante prêmio da língua portuguesa, abriu sua fala na 24º Festa Literária Internacional de Paraty dizendo que se sente muito bem na cidade do sul fluminense, ao ver tantas pessoas interessadas em livros, especialmente os jovens.
A poeta e historiadora angolana de 73 anos lança no Brasil o livro de crônicas ‘O sangue da buganvília’, pela editora Pallas. A mesa das 15h ‘O boi é só. O boi é só. O boi’ foi mediada pelo poeta Tarso de Melo, e passou por temas como sua formação enquanto leitora e escritora, relações com o Brasil, a importância da memória das feridas de um passado colonial — além de seus reflexos no presente — e a forma como sua poética retrata as experiências femininas no mundo.
Paula Tavares nasceu na província de Huíla, na região sul de Angola, em 1952, e atualmente vive em Portugal. No Brasil, estão publicados seus livros ‘Amargos como os frutos’, ‘O sangue da buganvília’, e ‘Verbetes para um dicionário afetivo’ pela editora Pallas e ‘Um rio preso nas mãos’ pela editora Kapulana.
Uma das vozes mais celebradas de Angola, ela coordena o grupo de investigação de Culturas e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, e colabora com o Arquivo Histórico Nacional de Angola.
‘Margem começa a ter sentido poético, e nós devemos isso ao Brasil’
Ao lembrar o impacto da literatura brasileira para a literatura angolana, Paula Tavares menciona o escritor Jorge Amado, e diz que o Brasil significou, para os angolanos, “uma consciência do mundo que até certo ponto não tinham”.
“Poetas anteriores à minha geração descobriram, lendo Jorge Amado, por exemplo, que as pessoas das margens, as pessoas naquele sistema colonial que vivíamos, poderiam ser protagonistas de livros. Foi uma descoberta maravilhosa. A margem começa a ter um sentido poético, e isso nós devemos ao Brasil.”
A poeta faz uma ressalva: “foi muito grande quando chegou Guimarães Rosa”, o que fez com que o escritor baiano fosse um tanto esquecido. Pessoalmente, Paula Tavares já se disse influenciada pelas obras de Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.
Ana Paula Tavares ainda destacou a influência da cultura brasileira em seu país na geração de seus pais, com suas “tias semianalfabetas” lendo vorazmente as fotonovelas, a força do futebol e também da Revista Manchete.
A poeta angolana Ana Paula Tavares lê um poema de ‘Amargos como os frutos’, edição brasileira de sua poesia reunida. — Foto: Flip
‘Ainda precisamos da utopia’
Ana Paula Tavares falou sobre seu projeto de manter uma memória do passado de colonização e de guerra de libertação de seu país, assim como das feridas não fechadas. Lembrou que Angola é uma nação formada por muitas pessoas na faixa dos 20 anos de idade, que não viveram o período de luta contra Portugal por independência.
A escritora afirma que os jovens de seu país vivem imersos em “problemas concretos”, como a dificuldade no acesso à saúde, mas quer percorrer um caminho contrário: trazendo essa memória, para se crie uma consciência da origem de muitas dessas vulnerabilidades.
A vencedora do Camões mencionou que ficou comovida com a mesa do médico Drauzio Varella, que aconteceu nesta sexta-feira (24), ao pensar no Sistema Público de Saúde do Brasil — o momento rendeu aplausos do público no Auditório da Matriz. Ela diz que, apesar de todos os gargalos, não se pode desistir da utopia.
“O cidadão angolano tem perfeita consciência de que está sozinho no mundo e que ele próprio tem que fazer um esquema se precisa de uma aspirina. E portanto, mesmo esse presente que é um abismo, esse presente que é tão complexo, esse presente não pode apagar a nossa necessidade da utopia, a nossa necessidade de sabermos que houve um passado muito mau e que agora precisamos de construir um futuro melhor. Nós precisamos da utopia, continuamos a precisar.”
‘Mulheres carregam o mundo nas costas’
A poeta relembrou quando um de seus livros esgotou rapidamente após um “mujimbo” (palavra angolana que se aproxima do termo fake news) de que seria uma obra pornográfica se espalhar.
Ana Paula abordou o retrato que traz da experiência feminina, por meio de uma poesia que expõe as feridas das mulheres, que “carregam às costas os filhos, os homens, a guerra, o final da guerra, o mundo inteiro, tudo isso às costas”, além de falar sobre sexualidade, erotismo, e amor de forma altiva. Paula Tavares disse que estava “um bocado farta” de que o corpo da mulher fosse sempre tratado como um objeto.
“Eu tentei, a partir daquilo que tinha escutado de outras mulheres, tentei desviar para um olhar de dentro. Um corpo que sofre, se transforma, põe crianças para fora, que envelhece, e tratar isso nos meus poemas. Era a única maneira que eu tinha para quebrar todo aquele pacto de invisibilidade que atingia as mulheres do meu país. A luta só se fez porque as mulheres estavam lá.”
Flip 2026
Festa Literária Internacional de Paraty
Começou nesta quarta-feira (22) a 24º edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Durante cinco dias (22 a 26 de julho), a cidade recebe em seu Centro Histórico leitores e escritores de todo o mundo para celebrar os livros e a cultura. O evento teve sua primeira edição em 2003, e desde então trouxe centenas de autores premiados às famosas ruas de pedra da cidade fluminense.
São destaque de 2026 os escritores Andréa del Fuego, Bethânia Pires Amaro, Ana Paula Tavares — vencedora do Prêmio Camões do ano passado –, Katie Kitamura, Paulliny Tort, Kamel Daoud, Milton Hatoum, Ernesto Mané, Zadie Smith, ministra Cármen Lúcia e o médico Dráuzio Varella. Tradição da Flip, neste ano a autora homenageada é a poeta paulista Orides Fontela, cujos versos nomeiam as mesas do Programa Principal da festa literária.
A Flip conta ainda com 44 casas parceiras que oferecem um circuito paralelo, como a Casa Sesc, que traz a intelectual e ativista americana Angela Davis. Nomes como Valter Hugo Mãe, Socorro Acioli e Conceição Evaristo também participam de eventos extras.
Como assistir às mesas da Flip?
- Pessoalmente, no Centro Histórico de Paraty: o acesso às mesas com os autores, que acontecem no Auditório da Matriz, é por meio de ingressos adquiridos previamente, mas é possível assistir às transmissões de forma gratuita pelo telão da Praça Aberta. Todas as mesas do Programa Principal contam com interpretação em Libras, audiodescrição e tradução simultânea para o público do Auditório da Matriz. Na Casa Patrimônio, no Largo da Santa Rita, as mesas do Programa Principal são transmitidas ao vivo gratuitamente e em língua portuguesa, quando a tradução for necessária.
- De forma remota: o Programa Principal conta com transmissão gratuita ao vivo pelo YouTube da Flip, e também no canal fechado de TV Arte1.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.



