janeiro 24, 2026

Palmas que salvam: a tática simples que ajuda a encontrar crianças perdidas nas praias


Com a chegada do verão, as praias ficam mais cheias, o movimento aumenta e, junto com turistas e famílias, cresce também a necessidade de atenção redobrada com as crianças. Em poucos minutos, um descuido pode virar desespero. Um passo a mais na areia, uma distração rápida, brinquedos soltos, e pronto: a criança perde a referência, se confunde entre guarda-sóis, cadeiras, pessoas… e acaba se perdendo dos pais ou responsáveis.

Todos os verões, essa cena se repete no litoral brasileiro. No Rio de Janeiro, por exemplo, quase 4 mil crianças se perderam e foram encontradas nas praias fluminenses do dia 21 de dezembro até 20 de janeiro. Foram 1,7 mil casos a mais do que no ano passado. No Rio Grande do Sul, quase 400 salvamentos foram registrados só neste verão. Em Florianópolis, na semana entre o Natal e Ano Novo, foram 400 ocorrências de crianças perdidas. No litoral paulista, pelo menos 325 casos em 2025.

Diante deste cenário, medidas simples fazem toda a diferença, segundo os guarda-vidas. Desde atitudes individuais como a supervisão constante e a identificação das crianças, até uma estratégia coletiva que vem ganhando cada vez mais espaço nas praias: bater palmas. Pode parecer estranho à primeira vista, mas quem já presenciou a cena entende na hora. De repente, em meio ao barulho do mar, das conversas e da música, o som das palmas ritmadas toma conta e se espalha pela praia.

Como funciona a tática das palmas

A tática funciona assim: quando uma criança é encontrada sozinha, ela é colocada nos ombros de um adulto, para ficar mais visível. Ao redor, os banhistas começam a bater palmas. O som chama atenção, cria um “farol sonoro” e guia os pais até o local, muitas vezes em poucos minutos.

A ideia não nasceu no Brasil. Ela vem da Argentina, atravessou fronteiras e foi ganhando força aos poucos, até se espalhar pelo litoral brasileiro. E quem trouxe a táctica de localização para cá foi o educador Rui Contreiras que lançou a plataforma Anjo do Verão, um ponto de encontro virtual para crianças e animais desaparecidos em praias. Agora, o mecanismo se aprimorou.

“Então, o Anjo do Verão, ele pega as palmas, melhora a ideia, os bombeiros estão distribuindo uma pulseira com QR code que aponta para o nosso site e a gente tem a possibilidade de implantar isso em 78 instâncias turísticas aqui do estado de São Paulo. E a ideia é que se espalhe por todo o Brasil, tag e chaveiro para cachorrinho e também funcionando o ponto de encontro no celular e no computador.”

Relatos de quem já viveu o desespero

Mas por trás da iniciativa, existe também uma história pessoal, um susto que virou propósito. Como tantas outras famílias, Rui viveu na pele o desespero de perder um filho de dois anos na praia e reencontrá-lo graças à ajuda  das palmas. Quem já passou por isso sabe: poucos minutos parecem uma eternidade. Foi o que a empresária Jaqueline Blepper sentiu.

“Nós não percebemos essa saída dele, e tudo aconteceu muito rápido. Ali, o desespero, ele tomou conta. Nós procuramos em volta e nada dele. Nós estávamos em quatro adultos procurando freneticamente por ele. E logo, nós já começamos a ouvir as palmas. No começo, nós não entendíamos o que estava acontecendo. E já em questão de minutos, percebemos que o Miguel estava protegido por um senhor junto daquele grupo que batia palmas. Ele estava chorando, assustado. Cerca de 60 e 70 metros, mais ou menos, de distância. Como criança não tem noção dessa distância, ele se confundiu com os guarda-sóis e se perdeu de nós.”

Histórias como a da Jaqueline se multiplicam todos os verões. Crianças que se confundem, que caminham poucos metros, mas somem no meio da multidão. O filho de cinco anos da arquiteta Mariana Ourivuo foi lavar os chinelos no chuveiro atrás da mesa onde eles estavam e num piscar de olhos, desapareceu.

“E aí eu comecei a bater palma e gritar o nome dele, e o pessoal também, várias mães que estavam perto começaram a aderir junto. E teve gente andando junto comigo na praia perguntando qual era a cor da sunga dele. Nós fomos encontrar ele uns 500 metros pra frente, a praia não era muito grande, foi desesperador. Foi assim, sei lá, cinco minutos que parecia uma hora pra encontrá-lo. E aí depois disso eu comecei a usar roupas bem estampadas, comecei a colocar pulseira de identificação com o telefone.”

Orientações para agilizar as buscas

Para os bombeiros, toda ação que agiliza a localização pode ajudar a salvar tempo e vidas. Segundo o Tenente-Coronel do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, Fábio Contreiras, os responsáveis pelas crianças devem estar atentos durante o tempo, tanto na faixa de areia quanto no mar.

“A primeira dica é dar um bom ponto de referência, que não seja possível de ser confundido. A segunda dica que eu daria é identificar a criança. Então, colocar uma pulseira no braço da criança, com o nome dela, o telefone do responsável. Isso facilita muito o nosso trabalho. Isso encurta horas de busca. Outra dica importante também que tem se usado muito são os rastreadores, via GPS, tags. As pessoas têm colocado junto à sunga da criança. Vai para o mar, a criança não pode ficar sozinha. A criança tem que estar com o adulto do lado. E, no máximo, a um metro de distância do adulto. Justamente para a onda não surpreender, não levar ela para o fundo, não provocar um afogamento.”

A eficácia da tática das palmas foi tanta que vídeos começaram a circular nas redes sociais. Cenas gravadas em praias brasileiras viralizaram e chamaram atenção até fora do país. Estrangeiros passaram a comentar o gesto como um exemplo de solidariedade e repostar a tática como algo simples, mas extremamente eficiente.

O Barbeiro e criador de conteúdo para a internet, Guilherme Visuchi, gravava despretensiosamente um vídeo para mostrar a cultura de bater palmas na praia quando percebeu que a criança perdida era o próprio sobrinho de seis anos.

“O vídeo bateu 45 milhões de visualizações. Fiz brincando, sabe? Na hora do momento lá, o pessoal tava batendo palma, aí eu disse: ‘ó, grava aí’. Batendo palma, batendo palma… Quando me deparei, era o meu sobrinho, que tava chorando. Na hora, eu já levantei e fui atrás dele. Ele tava na minha visão, eu tava olhando ele, a praia não tava cheia, tava vazia. Aí uma página viu, postou no Instagram deles e teve essa repercussão toda”, relatou.

Hoje, a prática já é incentivada por prefeituras no litoral brasileiro. E a orientação é clara: se vir uma criança sozinha, acione os bombeiros, mas também ajude. Bata palmas!



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