Procuradoria de Marrocos indicia 25 pessoas por suposta relação com entrada em massa de imigrantes em Ceuta

A Procuradoria de Marrocos indiciou 25 pessoas por acusações relacionadas à organização de travessias irregulares da fronteira e ao transporte não autorizado de passageiros de Marrocos para Ceuta, durante o fluxo maciço de migrantes para o enclave espanhol nos dias 30 e 31 de julho.
Segundo fontes judiciais consultadas pela Europa Press, as acusações incluem ainda auxílio e instigação à imigração ilegal, violência e resistência à prisão, e danos à propriedade pública.
Nem o Centro Nacional de Inteligência, nem qualquer outro serviço de inteligência da Espanha ou de qualquer outro país, recebeu informações sobre uma chegada em massa de imigrantes em Ceuta. A informação foi revelada pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, reiterando que o governo não recebeu nenhum relatório ou aviso prévio de que dezenas de milhares de migrantes iriam atravessar a nado a fronteira de El Tarajal, Marrocos, em Ceuta.
Em uma coletiva de imprensa após uma reunião de emergência com outros ministros do Interior da UE, Grande-Marlaska admitiu que nos dias anteriores houve alertas de que, como é típico no verão, poderia haver um ‘aumento’ no número de travessias marítimas para a cidade, e que desta vez elas poderiam ser ‘incentivadas’ pela decisão do Supremo Tribunal Federal, no início de julho, que proibia a devolução sumária daqueles que entrassem nas cidades autônomas a nado.
Entrada de imigrantes em Ceuta, enclave espanhol na África, vindos de Marrocos. — Foto: Reprodução
O ministro afirmou que, após esses alertas, ‘medidas foram tomadas’, se referindo ao reforço da Guarda Civil dias antes, que acabou se mostrando insuficiente devido ao grande número de pessoas que entraram em massa.
Ele também disse que, desde a decisão da Suprema Corte, começaram a estudar a instalação de uma barreira marítima que permitiria o restabelecimento do registro sumário para quem chega a nado, e que sua implantação em Ceuta foi acelerada após os eventos da última semana.
Um documento interno do ministério indica que ela também será instalada em breve em Melilla, outra cidade espanhola na África.
O ministro salientou que as análises sobre o que poderia acontecer neste verão nas fronteiras marítimas das duas cidades autónomas nem sequer consideraram a possibilidade de uma repetição de ‘algo semelhante’ aos acontecimentos de maio de 2021, quando 10 mil migrantes entraram ilegalmente na cidade.
Se tivessem considerado tal possibilidade, acrescentou, teria sido convocada uma reunião para tomar ‘medidas de emergência’ para garantir a segurança da fronteira. No final, o número de migrantes foi sete vezes superior ao da crise de há cinco anos, como o próprio Marlaska reconheceu, elevando o número dos que atravessaram a nado em El Tarajal para 72 mil. Pelo menos 75 morreram no lado espanhol, acrescentou.
A insistência do ministro do Interior em negar a existência de um relatório anterior do centro de inteligência alertando para o fluxo maciço de migrantes surge horas depois de sua colega de gabinete, Margarita Robles, responsável pelos serviços de inteligência, ter defendido veementemente o trabalho de seus agentes após declarações anteriores do próprio Marlaska que estavam a questionando.
Nesta terça-feira (4), o ministro procurou pôr fim à controvérsia expressando sua ‘confiança e apreço’ pelo trabalho do centro, acrescentando que seus membros ‘desempenham um papel prioritário, essencial e garantido’ da legalidade na Espanha. Ele também rejeitou a ideia de que a falha em detectar o que acabou acontecendo pudesse ser considerada um erro e, portanto, acredita que ninguém deveria ser responsabilizado.
O ministro aproveitou a conferência de imprensa para defender mais uma vez Marrocos, após críticas vindas do próprio governo sobre o papel do país na crise migratória. As análises iniciais de inteligência sugerem que as autoridades marroquinas não só falharam em conter o fluxo de migrantes em direção a El Tarajal, como também facilitaram a sua passagem e capitalizaram politicamente as repercussões internacionais do incidente.
Nesse sentido, Marlaska enfatizou a forte cooperação entre os dois países e destacou que a situação causada pelo fluxo migratório foi rapidamente resolvida graças ao apoio de Rabat, que possibilitou o retorno, em poucos dias, da grande maioria daqueles que atravessaram a fronteira a nado para Ceuta.
Marlaska também defendeu a resposta do governo à crise, que, segundo ele, foi reconhecida como ‘extraordinária’ e ‘eficaz’ pelos demais ministros do Interior durante a teleconferência de terça-feira.
Centenas de imigrantes tentam entrar em Ceuta, enclave espanhol na África. — Foto: Lucia Diaz/AFP



