Uso de canetas emagrecedoras faz ateliês reverem contratos e ajustes de vestidos de noiva

Se você estivesse com o casamento marcado, com quantos meses de antecedência escolheria o vestido de noiva? Para muitas mulheres, essa decisão começa bem antes da cerimônia. Entre provas e ajustes, esse processo faz parte de um dos momentos mais importantes de toda a experiência do matrimônio.
Mas, nos bastidores, costureiros relatam que mudanças nas medidas das noivas que utilizam canetas emagrecedoras já começam a impactar a rotina dos ateliês. Alterações sempre fizeram parte do processo, mas agora as noivas têm perdido muito peso em pouco tempo – de uma forma nunca vista antes. Com isso, esses profissionais passaram a adaptar o próprio trabalho e até mudar os contratos dos vestidos para lidar com os ajustes de última hora.
Ateliês criam cláusulas sobre uso de medicamentos
Essa foi a decisão que os proprietários do ateliê Ellegancy Costuras se viram obrigados a tomar quando notaram uma frequência muito maior na diminuição das medidas das clientes depois que as canetas se popularizaram.
Ateliê altera contratos de vestidos de noiva após aumento do uso de canetas emagrecedoras — Foto: Arquivo Pessoal
Donos do estabelecimento há mais de 15 anos, o casal Sérgio e Tatiana Rossini mudaram o contrato de ajustes dos vestidos de noiva quando passaram a ser impactados no cronograma de entrega dos vestidos: “a gente teve noivas que foram perdendo medida em cada prova, então cada vez que ela vinha provar o vestido, ela estava com uma diferença nas medidas. E aí, a gente pediu para ela suspender o uso do Mounjaro ou do Ozempic, porque o vestido chegou no limite de ajuste, já que começa a deformar a peça. A noiva perdeu essas medidas, faltando 15 dias para o casamento. Às vezes eu tenho que entregar faltando uma semana, aí acaba interferindo, sim, na entrega do vestido”.
“Eu tive que pôr uma cláusula que as noivas deveriam me avisar, caso elas estivessem tomando. Vamos dizer que de 50 noivas que eu atendo por mês, 45 delas estão tomando”, ressalta.
O ateliê, na Zona Sul de São Paulo, que trabalha com ajustes e customizações de roupas de diferentes tipos, passou a medir a cintura e o tórax de todos os clientes – caso não sejam transparentes sobre o uso das canetas e exijam mais ajustes que o combinado. Na prática, essas mudanças acabam impactando as provas e o planejamento para a costura do vestido, uma realidade que muitas noivas já enfrentam durante a preparação para o casamento.
Noivas adaptam escolha do vestido
A administradora Vanuza Vial, que se casou em novembro do ano passado, pesquisou diferentes ateliês e percebeu que muitos já previam, em contrato, cobranças extras por ajustes.
Administradora Vanuza Vial, que se casou em novembro de 2025 — Foto: Arquivo pessoal
Por isso, na hora de escolher o vestido, ela priorizou um local que permitisse mais provas sem custos adicionais – já que planejava fazer o uso das canetas emagrecedoras até o grande dia: “achei o ateliê, eu fechei, muito assertivo, que eles deixam a prova bem próxima à data do casamento. Então, eu comecei as provas umas três semanas antes do casamento e a última foi um dia antes, é o dia de retirar o vestido mesmo. E, se tivesse que fazer mais algum ajuste de última hora, eles estariam disponíveis para fazer. Então, acho que esse foi um ponto fundamental para a escolha também do lugar“.
“A maior dificuldade é que a gente tem que procurar um vestido muito tempo antes do casamento e, muitas vezes, num corpo que ainda não é o ideal”, conta.
Impacto já chega ao mercado de moda
De acordo com a Associação Brasileira do Varejo Têxtil, o fenômeno já impacta o comportamento de consumo no setor de moda. A entidade afirma que o crescente uso das canetas emagrecedoras tem causado impacto não só na área da saúde, mas também na transformação no próprio comportamento de consumo.
Apesar disso, os dados sobre a influência desses medicamentos na moda ainda são recentes. Segundo a Associação Brasil Plus Size, o mercado plus size cresceu 75% no país nos últimos 10 anos, mas ainda representa apenas 5% do faturamento do varejo de moda, um cenário que pode passar por mudanças por conta desse novo comportamento de consumo.
Algumas empresas já começam a sentir esses efeitos. A Varca, marca pioneira que atua desde 1939 no segmento de moda plus size masculina, avalia o fechamento de algumas lojas físicas e realiza a liquidação dos estoques.
Prova de vestido de noiva — Foto: Freepik
Em nota, a empresa afirma que a decisão ocorre em meio a uma combinação de fatores, como o aumento da concorrência, mudanças no perfil de consumo, o crescimento do uso de medicamentos para emagrecer, além da alta nos custos operacionais, o que impactou diretamente a rentabilidade. A marca destaca ainda que a liquidação faz parte de uma estratégia para uma possível reestruturação da Varca, que tenta se adaptar ao novo cenário do mercado.
Marcelo Prado é economista e diretor da empresa “Inteligência de Mercado”, que produz pesquisas sobre o comportamento do consumidor e o mercado brasileiro de varejo. Segundo ele, o setor já trabalha com ajustes nas modelagens e maior elasticidade nas peças, o que acaba deixando o mercado plus size um pouco mais de lado:
“As marcas aprenderam a usar tamanhos grandes, uma elastização do tecido. Então, começaram a criar soluções para vestir pessoas que não estão tão acima do peso, mas sem criar uma modelagem muito diferente. Isso que fez com que ao plus size limitasse, ficasse entre 8 e 9% das peças. O inverso, nós acreditamos que vai acabar acontecendo a mesma coisa. As pessoas vão emagrecer, as marcas vão se ajustando também nas medidas da modelagem de forma que o PP, P e M vista bem também umas pessoas menores”
Segundo o especialista, o setor de moda passa por um período de adaptação. Entre os ajustes de última hora, mudanças nos contratos e novas estratégias, profissionais e empresas tentam acompanhar o mercado que está em constante transformação.








