Embate com Trump mostra que Leão XIV herda “legado light” de Francisco

“Eu não tenho medo do governo Trump nem de proclamar em voz alta a mensagem do evangelho e é nisso que eu acredito. Sou chamado a fazer o que a igreja é chamada a fazer. Não somos políticos, não pretendemos traçar políticas externas com a mesma perspectiva que ele possa compreender, mas eu acredito na mensagem do evangelho.”
Foi nesse tom de voz, tranquilo, que o papa Leão XIV respondeu aos recentes ataques do presidente americano, Donald Trump, que o chamou de “fraco no combate ao crime”, “péssimo em política externa” e afirmou que a postura dele prejudica a Igreja Católica.
As ofensas vieram após o pontífice criticar abertamente a operação militar dos Estados Unidos e de Israel no Irã, depois que o líder republicano ameaçou matar uma “civilização inteira”.
Leão XIV, que já pediu por uma paz “desarmada e desarmante”, sai de uma suposta “neutralidade” política frente aos conflitos internacionais e demonstra estar disposto a construir um pontificado de continuidade ao do antecessor, o papa Francisco.
Papa Leão XIV toma posse da cátedra do Bispo de Roma. — Foto: Youtube/ Vatican News
Eleito em maio do ano passado, Leão vem construindo, aos poucos, uma figura forte no tabuleiro geopolítico.
Para Filipe Domingues, jornalista e analista de Vaticano, o pontífice gera incômodo ao governo americano quando questiona as decisões de Donald Trump.
“Desde o início dessa guerra no Irã, a maioria dos líderes globais tá meio calada, né? Meio que todo mundo lavou as mãos. E enquanto isso, o Papa Leão, com mensagens muito claras, o enfrentou. Fez uma coisa que é muito raro o Papa fazer, que é mencionar alguém nominalmente, um chefe de estado, falando para a imprensa. Então, acho que esse foi o ponto de diferença, que agora projetou mesmo o Papa Leão, um pouco antes do pontificado completar 1 ano, projetou ele de novo no cenário internacional.”
Mas os embates entre a Igreja Católica e Trump não são de agora. O papa Francisco já se posicionava – lá em 2016 – contra a política norte-americana de deportação em massa de imigrantes.
Com um ano da morte do papa que clamou à humanidade que construísse “pontes ao invés de muros”, é impossível se esquecer de como Francisco atuou frente à política internacional.
Eleito em 2013, a luta pela justiça social e pela fraternidade simbolizaram o pontificado dele, que se tornou referência de humildade dentro e fora da Igreja – e promoveu reformas estruturais na Cúria romana.
“Se envolver na política é uma obrigação para um cristão. Nós, cristãos, não podemos lavar as mãos. Temos de nos meter na política, porque a política é uma das formas mais altas de caridade, porque busca o bem comum. Isso é um dever! Trabalhar pelo bem comum é um dever do cristão.”
Desde o início do papado, Francisco defendeu abertamente a política como meio para alcançar um mundo de dignidade humana, pregado pelo Evangelho, e mediou crises mundiais importantes, como entre Cuba e os Estados Unidos, durante o governo Barack Obama.
Sem romper com os ensinamentos da boa política de Francisco, Leão XIV, de personalidade mais discreta, se mostra mais contido nos embates: demonstra mais tolerância, por exemplo, às extremidades do conservadorismo e do progressismo, como aponta Brenda Carranza, Cientista Social da Religião e professora da Unicamp:
“Eu acredito que o Leão 14 procura reacomodar o conflito litúrgico que tanto deu problema com o Papa Francisco. Os conservadores e ultraconservadores não se sentiam confortáveis com os pronunciamentos, sobretudo enquanto moral- sexual do Papa Francisco. Já o Papa Leão 14 parece que, sim, tem tentado legitimar a autoridade papal.”
Independentemente do papado, a Santa Sé segue reafirmando a postura pela defesa do diálogo e do não-uso da força, sem se encaixar nos moldes de uma política partidária. É o que pontua Mirticeli Medeiros, jornalista vaticanista e PhD em História da Igreja.
“É um tipo de linguagem que o papado adota após a Segunda Guerra Mundial. O papado contemporâneo ele vai por essa linha. Então independente de ser Francisco, de ser Leão XIV, existe uma política de Estado da Santa Sé que muita gente não sabe. É uma cartilha de princípios que o Papa deve seguir. Então mudou o Papa, mas os princípios continuam: a defesa dos imigrantes, do meio-ambiente, a busca por uma solução pacífica dos conflitos e por aí vai.”
Contrário à idolatria do poder e a favor da diplomacia, Leão XIV agora tem o desafio de equilibrar o posicionamento da Igreja Católica como um órgão de direito internacional diante de um cenário geopolítico de instabilidade.
Frente às ameaças de guerra – e a despeito do alcance da ênfase – em um ano de pontificado, Leão tem mostrado a fé como caminho para se opor à lógica do conflito.
A postura remete ao antecessor, Francisco, mas o atual pontífice vem moldando ainda, à maneira dele, uma marca pessoal.







