Craques de hoje: os jogadores atuais são superiores ou apenas mais bem preparados?

Os craques de hoje são melhores que os de antigamente, ou eles só correm mais? Recordes batidos querem dizer uma evolução do jogo? O que explica essas transformações no esporte? No quadro Visões do Futuro, no Estúdio CBN, o especialista Álvaro Machado Dias, neurocientista e professor livre-docente da UNIFESP, refletiu sobre o que tem influenciado essa percepção de quem acompanha o universo esportivo.
Transformação fisiológica ou técnica?
O DNA humano não se altera em poucas décadas. Como o especialista explicou, o que se alterou foi a profissionalização das diferentes atividades esportivas. Com isso, os biotipos esperados para cada uma se tornam cada vez mais definidos. Ou seja, os corpos passaram a ser “especializados dentro dessa peneira”.
“Por exemplo, o nadador de elite hoje é mais alto do que se era no passado: os braços mais longos, o tronco mais comprido. A diferença de 50 anos atrás é muito grande, a peneira mudou e isso se aplica aos outros esportes”.
Kevin Norton, professor de ciência do exercício na University of South Australia, publicou um estudo que prova como os corpos dos atletas passaram a se especializar mais de acordo com o esporte. Ele fala sobre “o arremessador de pesos que engordou, o pivô do basquete que esticou, e tudo isso conta bastante”, destacou Álvaro.
Porém, apesar da seleção de características importar, a técnica também é um fator essencial que, segundo o neurocientista, “não é simplesmente a maneira como as pessoas fazem a atividade”.
“É uma técnica que não envolve simplesmente ‘como treinar’, mas muitas vezes o próprio equipamento, o chão e assim por diante”, revelou ao citar que, até 2010, por um período, pôde ser utilizado um maiô de poliuretano; e, quando ele foi banido, uma “enxurrada” de recordes que estavam acontecendo simplesmente pararam.
Outro caso mais recente a ser analisado é a recém implantada “parada para hidratação” na Copa do Mundo. Álvaro explicou que esse fator é um exemplo de mudança que prioriza a estratégia, “afinal de contas, os técnicos podem reorientar os times naquele momento”.
O “mito do doping milagroso”
Recentemente, um campeonato em Las Vegas chamou a atenção por não somente liberar, mas incentivar, o doping dos participantes. Esperava-se uma quebra massiva de recordes, mas surpreendentemente não foi o que aconteceu, e participantes que não fizeram doping também venceram. O especialista classificou como “um dos campeonatos mais curiosos e bizarros dos últimos tempos”.
Os nomeados “Enhanced Games” (Jogos Aprimorados), segundo Álvaro, foram “um bom experimento contra o mito do doping milagroso”.
“Olhando do ponto de vista dos atletas, se revela que cada vez mais essa modificação puramente farmacológica perde importância. Ela é proibida, mas, mesmo que não fosse, ela perde importância frente às outras técnicas que foram avançando ao longo do tempo”, afirmou.
Messi pode ser considerado o novo Pelé?
Com um desempenho extraordinário, o craque Messi, da seleção argentina, vem sendo cada vez mais comparado ao rei Pelé. Isso levanta a dúvida: “se o Pelé estivesse jogando hoje, ele ainda seria o melhor jogador de futebol do mundo?”.
Ao responder à questão, Álvaro Machado Dias propôs antes a seguinte reflexão: “os atletas extraordinários e outras pessoas de talento extraordinário são extraordinárias de maneira atemporal ou existe algo no contexto que as torna extraordinárias?”. Na visão do especialista, o contexto importa.
“O talento não é simplesmente algo que brota de maneira universal e ponto final. Ele é algo que tem um contexto”, defendeu.
Para ele, o Pelé continuaria sendo extraordinário, porém teria que ser uma outra, e renovada, versão do craque. Hoje em dia, “ele precisaria de uma fisiologia, de um treinamento e de um repertório um pouco distintos”, explicou.
“O Messi, talvez, seja o jogador mais completo da atualidade, mas a comparação com o Pelé é espinhosa para o argentino, no meu ponto de vista, porque a questão é que, na sua época, o impacto do brasileiro foi ainda maior. Quando a gente transpõe como se o contexto não existisse, a gente perde o fenômeno”.



