Now Reading:

"Grande Sertão mudou a minha referência de dificuldade", diz tradutora da obra para o inglês

Share Page
julho 11, 2026
6 Min Read

"Grande Sertão mudou a minha referência de dificuldade", diz tradutora da obra para o inglês


Num dia desses, finais de junho, a CBN procurou a australiana Alison Entrekin para falar sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas para o inglês. A travessia dura como o sertão, que é o trabalho hercúleo de qualquer tradução, ganhou contornos muito mais complexos. Afinal, mesmo uma autora mergulhada na literatura brasileira – ela já traduziu Carla Madeira, Daniel Galera, Tatiana Salem Levy, Chico Buarque e outros – sabe do desafio que é transpor para outra língua uma obra-prima como Grande Sertão. Foram 12 anos de muita pesquisa, conversas, estudos, enfim, uma imersão completa na obra de Guimarães Rosa. O trabalho será lançado em 2027, junto com a tradução para o alemão da obra, assinada por Berthold Zilly. O mundo editorial está voltado para a saga dos jagunços contada no dialeto “inventado” por Rosa e que ganha vida na voz do personagem Riobaldo. Alison apostou na quebra de regras para “brincar” com as palavras, bem do jeito que o autor fez ao colocar no papel centenas de neologismos. Graças à plasticidade das palavras, ela seguiu a trilha roseana para alcançar as veredas da linguagem. O percurso d’água desejado pelos sertanejos foi tateado pela australiana conhecedora da alma brasileira, e agora, cúmplice do mítico Grande Sertão. Abaixo, trechos da conversa:

CBN – Como verter para uma outra língua, no seu caso, o inglês, um texto que é fruto praticamente de um novo dialeto?

ALISON ENTREKIN – Eu diria que é só criando um novo dialeto na tradução. Não tem como não fazer dessa forma. O tradutor sempre procura fazer aquilo que o autor fez. E se o autor fez alguma coisa que fugiu das normas da sua língua, a tradução também tem que fazer isso. Agora, uma vez que a gente sai do que é normal, do esperado, e entra nesse campo de invenção, quase tudo é possível. Parece uma missão impossível, e de certa forma é, mas, por outro lado, é muito reproduzível, porque as palavras são plásticas, e uma vez que você possa quebrá-las e usar de forma diferente, a língua deixa de ter as regras do dia a dia e a gente consegue ser mais livre. Inclusive, conversando com Caetano Galindo, tradutor de Ulisses (clássico de James Joyce), ele disse a mesma coisa, porque ele sentiu na pele também. A possibilidade de recriação lúdica, a língua é muito plástica. A gente consegue contornar a maior parte dos problemas. Guimarães achou um campo excelente para brincar. Ele bebeu nessa fonte. Eu nunca iria conseguir traduzir a fala do mineiro. Então, tinha que criar um dialeto, uma ilusão de dialeto em inglês, que não tem sotaque identificável.

CBN – Qual a importância de Grande Sertão: Veredas para a literatura mundial?

ALISON ENTREKIN – Eu acho que Grandes Sertão é um livro que merece estar entre os grandes livros de todos os tempos. Para mim e para muita gente que conhece, é isso. É um livro que merece estar na mesma prateleira com aqueles clássicos que vão brilhar para sempre, como Dom Quixote e Cem Anos de Solidão, por exemplo, livros dessa grandeza.

CBN – Qual sua expectativa para o lançamento da tradução, marcado para 2027? Está preparada?

ALISON ENTREKIN – Não estou, não. (risos) Eu não sei se tenho expectativa para o lançamento. Eu tenho a dimensão da importância do livro e sei o quanto dei meu sangue para a tradução, mas o resto, não sei. Estou ansiosa nesse momento, porque o livro está saindo, foi lido, claro, pelo povo das duas editoras, eles gostaram muito. O editor americano está alucinado, mas ainda está limitado a esse círculo de pessoas. Então, agora que está saindo, estou esperando o feedback delas. Vamos ver. Mas quem já leu, gostou.

CBN – Qual seu conselho pra quem quer ler e nunca leu ou nunca conseguiu, engatar na leitura?

ALISON ENTREKIN – Primeiro, a pessoa tem que entender que é uma travessia. Por isso, não vai ser tão fácil no começo, porque o Rilbaldo, o narrador, quando você abre o livro e começa na primeira página ele já está conversando com alguém. E ele vai contar a história dele, com referência a vários episódios da vida dele, que a gente ainda não entende, porque não se inteirou. Aos poucos, aquilo vai fazendo sentido, mas a gente tem que passar uma certa arrebentação, que, para algumas pessoas, podem ser 50 páginas, para outras, sei lá, 100 páginas…. Mas tem um momento em que tudo vai ficando mais linear, mais fácil de seguir, e aí tudo que ele falou lá atrás, no começo, começa a fazer sentido, porque aquilo tudo não foi conversa jogada fora, não, foi tudo muito pertinente. É um livro para ler duas vezes, realmente, porque aí você volta e vai ver a importância daquilo tudo.

CBN – Quais as camadas de dificuldade a se transpor?

ALISON ENTREKIN – A primeira é a narrativa. A outra, é a linguagem. Dependendo de onde você é no Brasil, pode ser mais difícil ou menos difícil, mas você também vai se acostumando, tem que meio que fazer aquilo que a Clarice falava, ler distraídamente, você não tem que pegar 100% o significado de tudo. Se você parar para destrinchar tudo, você não vai engatar na leitura. Relaxa, uma hora as coisas começam a fazer sentido, e o que não fizer sentido também não tem problema. Algumas pessoas têm dificuldade mesmo de começar a ler, mas quem persistir vai gostar, não tem como não ser pego pela narrativa, pelos personagens que são maravilhosos. É um livro que te recompensa muito, sabe?

CBN – Muitos consideram o contato com Grande Sertão: Veredas um ponto de mudança na forma de encarar a própria vida. Mudou algo pra você?

ALISON – Tudo o que nos desafia, nos faz crescer e adquirir outras habilidades. Sempre fui uma boa leitora, mas sou muito mais agora depois dessa tradução de Grande Sertão: Veredas. Agora posso fazer muito mais o jogo de palavras. Agora saio inventando coisas (risos). Tudo agora me parece muito mais fácil. Grande Sertão mudou a minha referência de dificuldade.



Source link

Visited 5 times, 1 visit(s) today