Na Flip, Angela Davis diz que a arte está na dianteira das lutas revolucionárias

A intelectual e ativista americana Angela Davis, grande pensadora do feminismo negro, antirracismo e expoente do abolicionismo penal, foi uma das atrações mais concorridas da Festa Literária Internacional de Paraty neste ano. O evento, que aconteceu no Sesc Caborê, teve todos os 700 ingressos retirados, além do público assistindo pelo telão no Centro Histórico de Paraty, e mais de 2 mil visualizações pelo YouTube do Sesc.
Davis participou da mesa ‘América e África: uma conversa Atlântica’, com mediação da jornalista Flávia Oliveira, colunista da CBN. Inicialmente, estava prevista a paticipação do escritor nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a vencer o Prêmio Nobel de Literatura (1986), mas sua participação foi cancelada devido a um tratamento de saúde emergencial, que o impediu de viajar à cidade do sul fluminense.
Wole Soyinka foi lembrado durante a fala de Davis, que afirmou que estava especialmente feliz em aceitar o convite de vir a Paraty quando soube que Soyinka seria parte da conversa, e desejou que ele saia do hospital em breve para que o encontro aconteça. “Mas tenho de admitir que o Brasil é o meu lugar favorito no mundo, e estou sempre feliz em aceitar esses convites”, disse a ativista, que já esteve em solo brasileiro outras vezes.
“Estou especialmente honrada por poder ter esta experiência aqui em Paraty, que tem tanta história. Podemos quase sentir a presença dos ancestrais neste lugar, que desempenhou um papel durante o período da escravidão”, destacou.
O evento, que estava marcado para as 18h começou com atraso de quarenta minutos, e durou cerca de duas horas. Problemas técnicos para que a ativista pudesse acompanhar a tradução simultânea das perguntas para o inglês atrapalharam o primeiro momento, o que obrigou a intérprete a se juntar ao palco. Davis falou “desculpa”, em português, para o público ansioso, e pode finalmente iniciar sua fala.
Angela Davis abordou diversos temas a partir de perguntas relacionadas ao pensamento de intelectuais negros brasileiros, como Lélia Gonzalez e Milton Santos. Um momento de comoção foi quando ela relembrou o período em que foi presa em 1970 pelo FBI, acusada injustamente de assassinato e conspiração.
Davis foi salva da pena de morte graças a uma mobilização global, com protestos em diversos países além dos Estados Unidos pedindo sua libertação, como Brasil, França, Vietnã, Japão e África do Sul. No Sesc, a ativista afirmou que o episódio ensinou a ela uma “lição”:
“Quando as pessoas se unem, ultrapassando fronteiras nacionais, podemos enfrentar até mesmo as figuras mais poderosas do mundo. Porque eles estavam convencidos de que eu seria executada. E milhões de pessoas, sabe, eu poderia citar lugares no mundo todo, disseram: não, não permitiremos que nossa irmã seja executada.”
Davis afirmou que recebe perguntas o tempo todo sobre esse período de sua vida e sobre “como foi sua luta”, mas diz que não fazia muito, já que estava na prisão. Ela defende que as pessoas que assinaram as petições, participaram de manifestações, “que geraram esse poder e essa força” foram quem “tornou impossível que os homens mais poderosos do mundo prevalecessem”.
“E eu acho que é isso que precisamos fazer hoje. Precisamos construir movimentos como esse, que prevenirão aqueles no poder de avançar com suas agendas de fascismo e capitalismo racial.”
A ativista e intelectual Angela Davis, durante a Flip 2026, falando no Sesc Caborê. — Foto: Hélio Melo/ Sesc RJ
Davis ainda fez menção às eleições brasileiras, dizendo: “Vocês não podem permitir que o filho de… como é mesmo o nome dele?”, referenciando Flávio Bolsonaro sem citá-lo diretamente. Em seguida, afirmou que existe uma tradição africana relacionada ao ato de nomear, e que dizer um nome é conferir força. “Por isso, prefiro não pronunciá-lo.”
A ativista falou sobre a morte de Marielle Franco, dizendo que a vereadora “entendeu as conexões entre a violência doméstica e a violência que acontece com as mulheres que estão encarceradas e sujeitas à violência policial”, e que “se levantou contra a violência que foi levada para as comunidades”.
“Se nós vivemos em uma sociedade violenta, onde é ok que a polícia agrida oficialmente, então isso aumenta a medida da violência em nosso mundo. E isso encoraja aqueles que, infelizmente, se recorrem à violência no contexto de suas relações íntimas.”
‘Arte está na dianteira da mudança’
Angela Davis fala em evento do Sesc em parceria com a Festa Literária Internacional de Paraty. — Foto: Divulgação
Angela Davis relembrou uma de suas viagens ao Brasil, quando foi a um show de samba e dançou até o dia raiar, “percebendo que não sabia como sambar”, e que pensou que há algo sobre a natureza da música, da arte e da literatura que “nos permite alcançar dimensões que não estão disponíveis de outra maneira”.
Nós sabemos que queremos liberdade, nós sabemos que queremos um fim à repressão, mas não temos sido capazes de expressar isso de maneiras que capturem o que nós pensamos. Como uma sociedade sem todas essas formas de opressão seria? Talvez ainda não tenhamos aprendido como descrever, mas a arte nos permite experimentar o que se sente.”
Davis disse que a arte “está na dianteira das lutas revolucionárias pela mudança”, e que momentos como a dança no Brasil podem trazer um “senso de comunidade com alegria indescritível”. “E esse é o mundo que queremos.”
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.



