Marrocos afirma que entrada de imigrantes em Ceuta foi por redes sociais e tráfico humano

As autoridades marroquinas atribuíram o recente fluxo migratório , que levou cerca de 60 mil pessoas ao enclave espanhol de Ceuta, na África, às redes sociais e ao tráfico de seres humanos.
O aumento repentino da semana passada não se deveu a ‘circunstâncias espontâneas ou fatores circunstanciais’, mas sim à ‘exploração maliciosa do espaço digital e à atividade de redes de tráfico humano’, afirmou o Ministério do Interior marroquino neste domingo (2), em seu primeiro comunicado sobre a crise.
Autoridades em Rabat alegaram que informações falsas se espalharam online a respeito de uma recente decisão da Suprema Corte espanhola, que determinou que o governo não pode acelerar as deportações imediatas de migrantes que chegam por mar, ao contrário daqueles que escalam as cercas da fronteira ou entram por terra.
‘Interpretações errôneas reforçaram, entre alguns daqueles que desejavam migrar, a convicção de que era possível evitar o retorno imediato’, acrescentaram as autoridades.
O governo de Rabat afirmou ter adotado uma ‘abordagem proativa e abrangente’ para a crise na fronteira e prometeu ser um ‘parceiro confiável e responsável’ no combate à imigração ilegal e ao tráfico de pessoas.
A acusação de Marrocos contra a desinformação na internet é semelhante à do governo espanhol.
‘O que ficou evidente em nossas conversas com as autoridades marroquinas é que as máfias do tráfico interpretaram uma decisão da Suprema Corte de forma conveniente para seus próprios interesses’, afirmou o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.
Ele afirmou que a ideia de que os migrantes que chegavam por mar não podiam ser deportados ‘se espalhou como fogo em palha pelas redes de organizações de tráfico humano’.
Inteligência espanhola acredita que entrada em massa de imigrantes teve ajuda de Marrocos, diz jornal
Centenas de imigrantes tentam entrar em Ceuta, enclave espanhol na África. — Foto: Lucia Diaz/AFP
Os serviços de inteligência da Espanha acreditam que a entrada em massa de imigrantes em Ceuta vindos de Marrocos teve ajuda do governo marroquino. Apesar de não terem planejado a ação, eles facilitaram a passagem, falharam em conter o fluxo de pessoas e ainda capitalizaram politicamente no caso.
A informação foi revelada pelo jornal El País, dizendo que a conclusão surgiu após análise da crise que pegou o governo espanhol de surpresa, devido ao foco no combate aos incêndios florestais no país.
Como não teve um planejamento para o episódio e sim um ‘ato de oportunismo’, a Espanha acredita que entre os motivos estariam a recente visita de Pedro Sánchez à Argélia, a nacionalização do povo saarauí (do Saara Ocidental) ou mesmo a rivalidade para sediar a final da Copa do Mundo de 2030.
O êxodo em massa teve origem em um boato disseminado pelas redes sociais e grupos de mensagens, após a recente decisão do Supremo Tribunal que confirmou que os migrantes que chegassem a Ceuta e Melilla nadando não poderiam ser deportados sumariamente, mas sim teriam seus processos analisados, assim como os que chegavam de barco.
Muitos jovens marroquinos acreditaram que entrariam na Espanha sem problemas e sem serem repatriados.
Embora as autoridades marroquinas tenham promovido essa mentira em 2021, permitindo a entrada de mais de 10 mil pessoas em Ceuta, e a tenham interrompido abruptamente em 2024, desta vez permitiram que continuasse.
Ao longo de julho, as entradas irregulares em Ceuta pelo mar aumentaram gradualmente. O que começou como um pequeno fluxo virou uma entrada em massa na última semana. Coincidindo com a celebração do Dia do Trono, um feriado em Marrocos, a vigilância fronteiriça marroquina foi reduzida ao mínimo, até ser completamente suspensa, permitindo a passagem das multidões.
Entrada de imigrantes em Ceuta, enclave espanhol na África, vindos de Marrocos. — Foto: Reprodução
O Departamento de Estado dos EUA descreveu o ocorrido como uma ‘violação flagrante da soberania espanhola’, culpando posteriormente a política de imigração do governo do premiê Pedro Sánchez. O embaixador israelense na ONU chegou a chamar Ceuta de ‘enclave colonial’, uma declaração que teve de ser corrigida pela Embaixada de Israel em Madrid.
Em carta aos chefes das instituições europeias , o presidente espanhol queixou-se da resposta ‘egoísta, polarizadora e ilegal’ de alguns países europeus, como a Itália, que anunciou a suspensão da livre circulação com a Espanha, e a Finlândia e a Dinamarca, que ameaçaram excluir a Espanha do Espaço Schengen.
Durante sua visita a Ceuta na última sexta-feira, Sánchez descreveu o fluxo maciço de marroquinos para Ceuta como um ‘ataque e violação da integridade territorial da Espanha’. Esta é a primeira vez na história democrática da Espanha que um chefe de governo usa termos que fazem referência direta ao Artigo 8º da Constituição, que lista as missões das Forças Armadas.
No entanto, diferentemente de 2021, o governo evitou apontar Marrocos como responsável por essa agressão, e o Ministério da Defesa não assumiu o comando das operações. Em vez disso, se limitou a colocar cerca de 1,6 mil soldados da guarnição de Ceuta à disposição do Ministério do Interior para funções de vigilância e dissuasão.
Além disso, a Marinha mobilizou três lanchas de patrulha — uma oceânica e duas costeiras — que, entre outras tarefas, instalaram uma barreira de bóias flutuantes ao longo da fronteira marítima com Marrocos.
Imigrantes entram em enclave espanhol na África, Ceuta. — Foto: Reprodução



