Do céu ao espaço: por que o lixo espacial virou uma ameaça crescente

Imagine você precisar deixar a casa onde mora porque esferas de titânio caíram do céu! Foi isso que aconteceu em uma praia na cidade de Townsville, na Austrália, dias atrás. Episódios como esse acontecem por conta de um problema que preocupa cada vez mais os cientistas: o lixo espacial.
Nesta quarta-feira (5), um foguete da SpaceX, agência espacial do Elon Musk, colidiu com a lua, criando uma cratera de 18 metros.
A professora Duília de Mello, colaboradora da NASA e pesquisadora do ITA, explica que algo do tipo não aconteceria no nosso planeta. Quando os metais ultrapassam a atmosfera terrestre, eles são incendiados e se quebram em pequenos fragmentos. Quando eles chegam ao solo, o tamanho já é desprezível para qualquer devastação.
O caso das esferas encontradas na Austrália é exceção, já que o titânio tem um ponto de fusão muito alto. Duília explica que a preocupação com esse lixo não é sobre a possibilidade de adentrar o planeta, mas sobre os riscos de permanecer no espaço.
O perigo invisível que circula ao redor da Terra 🌎
Hoje, mais de 15 mil toneladas de lixo giram em torno da Terra. O dado consta num relatório divulgado pela empresa de engenharia Accu. Os dados foram compilados a partir de informações da Rede de Vigilância Espacial dos Estados Unidos.
O maior risco é a colisão desse material com alguma nave, ou com algum satélite de telecomunicações – que pode afetar internet, GPS e monitoramento ambiental, militar e científico.
Hoje, as missões tripuladas em órbitas baixas são menos frequentes do que na época dos ônibus espaciais. Mesmo assim, toda nave que deixa a Terra precisa passar por essa região, onde se concentra a maior parte desses resíduos e o risco de colisão é maior.
Imagem da Terra capturada pela Orion. — Foto: Divulgação/NASA
Como não existe uma ferramenta amplamente viável para remoção do lixo espacial, os cientistas atuam monitorando os detritos para evitar acidentes. A própria colisão desta quarta-feira já estava prevista há meses e os cientistas aproveitaram a oportunidade para realizar estudos sobre a superfície lunar, como explica Duília.
“A gente consegue aprender, por exemplo, que havia sódio nessa região, um elemento químico interessante para sabermos que existe na Lua, além do próprio lítio do foguete. Então, estamos entendendo as impressões digitais químicas da Lua. Isso é importante para a gente saber”, ressalta.
Pequenos fragmentos, grandes ameaças 💥
Apesar do avanço científico, o monitoramento do lixo espacial apresenta limitações. O professor Marcelo Lapola, doutor em Astrofísica e Cosmologia pelo ITA, comenta: “há uma estimativa estatística de 1,2 milhão de fragmentos entre 1 e 10 centímetros que são impossíveis de rastrear, mas que podem ser letais. Um objeto de 2 centímetros, por exemplo, ao colidir com uma nave ou um foguete, pode provocar um grande buraco e causar despressurização”.
“Todo esse material representa mais de 15 mil toneladas de resíduos girando em torno da Terra”
Marcelo também explica que a remoção de lixo espacial requer cálculos minuciosos, um poder computacional enorme e um investimento de dezenas de bilhões de dólares. Caso contrário, o envio desse material para o espaço pode arriscar mais colisões e ainda mais lixo espacial.
O desafio de criar regras para uma nova era espacial 🚀
O consenso entre os pesquisadores é o foco na prevenção. Em 2003, as principais agências espaciais do mundo estabeleceram diretrizes de descarte responsável desse material.
O astrofísico e professor da Universidade Federal de Itajubá Gabriel Rodrigues Hickel explica que esse acordo não é mais suficiente. Hoje, o lixo espacial não é gerado apenas pelas missões de exploração dos governos, mas também pelo grande número de satélites para as telecomunicações, lançados, especialmente, por iniciativas privadas.
Só a SpaceX, por exemplo, já tem mais de 10 mil satélites em órbita, lançando mais de 100 deles a cada mês, desde 2019. “O protocolo foi assinado por nações, e não por empresas. Então, talvez fosse necessário criar algo nesse sentido também para a iniciativa privada: um termo de responsabilidade mundial. É preciso garantir que haja responsabilidade. Algo semelhante ao que é feito, por exemplo, em relação ao meio ambiente. Se todas as empresas que prometem lançar suas redes de satélites realmente fizerem isso, nós vamos começar a ter problemas de fato”, alerta.
“Ninguém quer impedir que a tecnologia avance ou que novos usos sejam desenvolvidos, mas é necessário estabelecer algum tipo de controle”
Apesar das diretrizes, especialistas concordam sobre a necessidade de renovar o compromisso entre as próprias nações e formalizar o acordo juridicamente.
Em 2007, a China explodiu um de seus próprios satélites e o que era, antes, um objeto facilmente monitorado, transformou-se em dezenas de milhares de fragmentos praticamente impossíveis de serem rastreados e com grande potencial letal para colisões. A ação foi repetida pelos Estados Unidos, em 2008; Índia, em 2019 e Rússia, em 2021.
A atitude é interpretada como uma demonstração de poder militar: como a economia mundial já é dependente dessa tecnologia, os países com capacidade de destruir satélites em órbita esbanjam vantagens.
*Beatriz de La Corte é estagiária com a supervisão de Lucas Soares



