Vini Júnior foi vítima de pelo menos 17 denúncias de racismo nos últimos dois anos

O protocolo antirracista da FIFA voltou a ser acionado numa partida de futebol nesta terça-feira.
O árbitro do jogo entre Real Madrid e Benfica, pelos playoffs das oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa, cruzou os punhos após o brasileiro Vinicius Júnior denunciar ter sido vítima de racismo.
Ele acusou o atacante argentino adversário Gianluca Prestianni de chamá-lo de ‘mono’ — macaco, em espanhol.
O protocolo acionado, no entanto, só prevê algum tipo de punição em caso de três ocorrências numa mesma partida. A penalidade aplicada é o fim do jogo, com derrota do time associado ao ato racista.
Como a denúncia foi feita só uma vez, o árbitro pediu apenas um anúncio no estádio que exigiu o fim do comportamento.
Na visão de especialistas, a estratégia não tem efeito prático no combate ao racismo.
O protocolo antirracista foi criado em maio de 2024. Segundo o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o número de denúncias aumentou desde então.
Foram 109 no futebol brasileiro no ano retrasado e 124 em 2025. No caso de atletas brasileiros que atuam no exterior, 16 denunciaram ter sido vítimas de racismo em 2024. No ano passado, o número subiu para 20.
Do total de 36 episódios nesses dois anos, 17 foram ligados a Vinícius Júnior. Desde 2014, o número de casos só não subiu entre 2023 e 2024.
O diretor do Observatório, Marcelo Carvalho, afirma que a quantidade de denúncias aumentou tanto pelo avanço de movimentos extremistas quanto pela conscientização sobre o assunto:
“Tem um crescimento do discurso de ódio no Brasil e no mundo. Na Europa, por exemplo, os movimentos fascistas e nazistas perceberam que o estádio de futebol poderia se transformar numa plataforma de divulgação desse ódio. Mas também podemos dizer que quanto mais a gente conversa sobre racismo, programas repercutem os casos, clubes e as entidades falam sobre conscientização, mais pessoas vão quebrando o silenciamento.”
Na avaliação de Marcelo, o protocolo antirracista é pouco eficaz e poderia ter mais impacto se o árbitro de vídeo fosse acionado em casos de denúncia.
O ex-árbitro Márcio Chagas também entende que o protocolo não tem efeito prático.
Para ele, casos de racismo deveriam ser punidos, por exemplo, com perda de pontos, do mando de campo e da presença da torcida nas arquibancadas.
Márcio também defende a inclusão do tema no ensino da arbitragem:
“Se tu tiver, dentro de um curso preparatório, uma disciplina específica da luta antirracista, eu acho que esse já seria um primeiro passo muito importante, porque daria um embasamento teórico de como de como o racismo se desenha, quais palavras estão previstas dentro do racismo, o que que se pode tolerar ou não. Porque muitas vezes se confunde e se tenta minimizar, dizendo: ‘mas eu chamei só o cara de negão’. Espera só um pouquinho. O cara é teu amigo? Ele tem alguma relação contigo?”
Tanto ele quanto Marcelo Carvalho acreditam que a sensação de impunidade é o que deixa jogadores e torcedores confortáveis para praticar atos racistas.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, se manifestou, nesta quarta-feira, sobre a nova denúncia de racismo contra Vinicius Junior. Ele disse estar ‘chocado e triste’ com a situação, parabenizou o árbitro por acionar o protocolo antirracista e pediu para que todas as partes tomem medidas e responsabilizem os culpados.
A UEFA — que comanda a Liga dos Campeões — abriu um processo para investigar o caso.







