Brasil na moda? Por que a cultura brasileira voltou aos holofotes internacionais

Com a valorização do cinema nacional, influenciadores estrangeiros descobrindo obras de Machado de Assis e diversos artistas se identificando com os fãs, o Brasil se posiciona como um novo polo cultural de destaque.
Em entrevista ao Estúdio CBN, a jornalista e especialista em semiótica da cultura Néli Pereira explica os fatores que trouxeram um novo “hype” para a cultura brasileira. Ela destaca que a primeira vez que o Brasil chamou a atenção internacionalmente foi na Era Vargas, com a figura de Carmen Miranda.
“É essa influência, o que se chama de soft power, esse poder sutil, esse poder brando, que é diferente do poder mais duro, imposto, que a gente também vê acontecendo no mundo hoje. Esse poder que atua por meio da cultura, essa influência cultural, foi inaugurado com Getúlio Vargas e teve como grande ícone a Carmen Miranda, que foi usada, inclusive, politicamente dentro da Política da Boa Vizinhança.”
Ao ser questionada sobre o que há de diferente desta vez, a pesquisadora afirma que hoje existe um interesse maior dos artistas por culturas mais autênticas.
“Há um interesse maior nas comunidades, na estética das comunidades do Rio de Janeiro, em culturas mais autênticas, em culturas que esteticamente tragam uma novidade ou algo diferente. O que se vê são artistas que se interessam por essa cultura e que viram vetores dela. As marcas fazem a mesma coisa. No ano passado, por exemplo, tivemos uma grande marca internacional desenvolvendo uma campanha global com a estética dos passinhos, dos cortes de cabelo e outros elementos, em pleno Copacabana Palace.”
Ela cita que, após o brasileiro ser visto e validado pelo olhar estrangeiro, passou a compreender melhor a dimensão da própria cultura.
“Começou a circular um verbete chamado Brazilian Money, o dinheiro brasileiro. Hoje, o Brasil é disputado economicamente porque somos esse celeiro digital. A gente entendeu o nosso tamanho, principalmente a partir da Fernanda Torres no Oscar, da blogueira que fala sobre Machado de Assis. A gente entendeu o nosso tamanho.”
Néli também comenta que existe um certo cansaço em relação à exploração de culturas consideradas óbvias.
“Há uma fadiga do que é o centro mais óbvio. É como pensar: Estados Unidos de novo, Europa de novo. Eu já ouvi esse disco, já li esse livro, já vi esse cenário, já conheço esse roteiro. Além disso, esses lugares que eram polos tradicionais de difusão cultural e de produtos culturais enfrentam crises de identidade e crises financeiras.”
Ao afirmar que o Brasil está na moda, surge o debate sobre o que é central e o que é regional.
“São lugares de disputa, e eu acho que vêm sendo disputados de formas diferentes. Quando o Wagner Moura vai receber ou entregar um prêmio — e ele recebe no tapete vermelho, que também revela um modo imperialista de agir —, mas quando ele entrega o prêmio e diz, como falamos no Brasil, ‘um filme estrangeiro’, ele se coloca num lugar em que, para ele, os estrangeiros são eles.”
Com um território extenso e uma cultura vasta, Néli destaca a importância do interesse cotidiano pelo país.
“Eu acho que esse exercício diário de procurar o Brasil, de se interessar pelo nosso lugar, é fundamental. Não precisa ser pelo cinema, pelo futebol, pela música ou pela gastronomia. Existem infinitas frentes, escolha a sua. A partir do momento em que a gente se interessa por um aspecto do que é nosso, isso vai puxando outros. É como uma corda.”







