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'Estou reaprendendo a criar graças ao carnaval', diz Socorro Acioli, autora de ‘A cabeça do santo’, enredo da Unidos da Tijuca em 2027

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junho 22, 2026
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'Estou reaprendendo a criar graças ao carnaval', diz Socorro Acioli, autora de ‘A cabeça do santo’, enredo da Unidos da Tijuca em 2027


Vai dar samba o encontro que mistura uma história surreal de uma cidade do interior do Ceará, Gabriel García Márquez e a escritora que juntou os dois para escrever um dos mais celebrados livros do país. No ano que vem, a Unidos da Tijuca levará para a Avenida a história ‘A cabeça do santo’, sucesso literário da cearense, de 51 anos, Socorro Acioli. O livro narra a saga de Samuel, homem que começa a ouvir os pedidos de mulheres para Santo Antônio ao encontrar abrigo dentro de uma estátua inacabada do santo.

“Tenho vontade de reescrever o livro com as coisas que eles estão pensando, em como dividiram o livro na ordem das alas, e dos carros. Tenho que ouvir eles para escrever melhor. Acho que estou reaprendendo a criar depois desse Carnaval”, contou Socorro ao CBN Rio neste mês, num intervalo entre o encontro que teve com a escola de samba e a reunião com centenas de fãs e admiradores no Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Escritora Socorro Acioli. — Foto: Divulgação / Julio Cesar Guimarães

A história é real: em Caridade, no interior do Ceará, uma imensa estátua de Santo Antônio foi construída, mas a cabeça ficou no chão, inacabada, por quase 40 anos. O problema urbano só foi resolvido no ano passado, após ganhar contornos fantásticos nas páginas de Socorro Acioli e que agora ganhará forma de desfile sob o comando de Lucas Milato, carnavalesco da Unidos da Tijuca.

“Estou aprendendo o que é o Carnaval e como essas pessoas se expressam artisticamente para colocar essa grande ópera popular na rua. Essa é uma história que não é só minha, eu criei a partir de uma história real de uma cabeça no meio da rua — e a cidade detestava, agora ama. O padre vem pra cá para desfilar. É uma loucura”, diverte-se a escritora.

Tudo o que podemos ler ao longo das 168 páginas de ‘A cabeça do santo’ e o que veremos na Sapucaí só existe graças à curiosidade de Gabriel García Márquez. Para entrar em um curso do escritor colombiano, em 2006, Socorro precisou escrever, em dois dias, um parágrafo resumindo a história para apresentar a um dos maiores nomes da história da Literatura.

“Passei anos tentando entrar no curso. E pensava: se não for aprovada agora, é um sinal divino para desistir da carreira e tentar outra coisa. Precisei de um poder de síntese para contar a história desse homem que tinha acesso ao segredo de amor das mulheres. Era exatamente o que Gabriel queria ouvir, era a semente da história que eu queria contar. Foi sob pressão, mas me dei bem”.

Todos se deram bem. Ela, o protagonista Samuel, a Unidos da Tijuca e os centenas de milhares de leitores da obra. Para alívio deste repórter e seus exemplares surrados de ‘A Cabeça do Santo’ e ‘Oração Para Desaparecer’, Socorro anunciou, antes da entrevista aos organizadores do evento do CCBB, que ficaria o tempo necessário até autografar todos os livros.

Ela gosta do contato com o público. Fica ainda mais feliz quando leitores levam um papel qualquer e lhe pedem uma assinatura: são seus novos fãs, que chegaram graças à plataforma MEC Livros, que dá acesso gratuito e online a obras literárias. Seu ‘A cabeça do santo’, livro de 2014, que estourou impulsionado pelas redes sociais, é a obra mais procurada do acervo.

“Escrevo livros reservada, com um trabalho rigoroso para conter o caos que é esse tipo de história que conto. Quando o livro sai, não sei o que vai acontecer. Quando termino de escrever, acho que vai dar tudo errado. Já tentei cancelar contrato… Tenho um medo muito grande e acho isso saudável. Mas com a recepção e o contato com os leitores, ouvindo como o livro bate em cada vida, é que entendo esse mecanismo quase mágico de escrever literatura e ver as pessoas saírem de suas casas para falar comigo”, refletiu.

Da cabeça de Socorro Acioli, entre o caos e o delírio, virá um novo livro após o carnaval de 2027. Delírio San Pedro já está na 12ª versão. “Já adiei a data milhões de vezes, mas agora chega, né? Já estou escrevendo há 20 anos”, conta, revelando a premissa de um garoto criado em um hospital psiquiátrico que, enganado, acaba parando em um prédio onde a realidade é compreendida de maneira diferente. Entre os sorrisos que distribui, deixa escapar que será seu projeto mais delirante.

O delírio, aliás, é o seu ofício, como ela mesma define nas redes sociais. Entre tantos eventos literários, coluna na Folha de S.Paulo, uma escola de samba e, afinal, um livro, qual é a hora do delírio?

“Deliro muito nos aviões, mas o tempo inteiro estou delirando. Às vezes, falando, paro porque tenho que organizar os pensamentos. Mas vou tirar umas férias para poder delirar em paz. Preciso terminar o meu livro, tenho que levar a sério”, despediu-se, entre risos.



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