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‘Grande Sertão: Veredas’ completa 70 anos com retrato ainda atual do Brasil e desafios para tradução

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julho 13, 2026
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‘Grande Sertão: Veredas’ completa 70 anos com retrato ainda atual do Brasil e desafios para tradução


Em 16 de julho de 1956, “Grande Sertão: Veredas” chegava às livrarias, romance de Guimarães Rosa que até hoje é considerado um dos mais importantes da literatura brasileira. O escritor mineiro criou um dialeto para contar a saga de jagunços em busca de vingança em meio ao sertão brasileiro. No caminho até as veredas, o chão seco e mítico mistura guerra, amor proibido e o universalismo da condição humana. Em 2027, duas traduções da obra serão lançadas – uma em inglês e outra, em alemão.

“Viver é um descuido prosseguido”; “Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo. Quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”; “O sertão é dentro da gente”; “Não sou homem de meio dia com orvalhos”.

Escolher, entre mais de 500 páginas de uma obra prima, poucas frases que possam encantar é tarefa árida. Isso porque tudo em “Grande Sertão: Veredas” é avassalador. Em um esforço de imaginação, é possível supor sacudir o livro e ver caírem centenas de palavras de uma nova língua. É ver criar vida uma saga forjada em um ambiente hostil, o sertão, para falar das batalhas da alma humana. Foi o que fez Guimarães Rosa ao retratar a saga de jagunços pelo sertão de Minas, Bahia e Goías.

O autor mineiro, nascido em Cordisburgo, inventou um dialeto próprio e contou uma história universal. Em uma pesquisa minuciosa, Guimarães misturou o português arcaico e os regionalismos para subverter a escrita. E, ao completar 70 anos em 16 de julho de 2026, a obra que revolucionou a literatura torna-se ainda mais atual.

Guimarães Rosa — Foto: Divulgação/APM

Tudo parte do Macrossertão geográfico, para atingir o “microssertão” íntimo. Na visão do economista e filósofo Eduardo Gianetti – que ocupa a cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras (ABL), a mesma que foi de Guimarães Rosa –, por todos esses aspectos, “Grande Sertão” é obra muito atual. Além disso, é necessária como espécie de antidoto:

“Eu não conheço, na literatura, um antídoto melhor para essa narcose digital em que nós estamos vivendo do que uma leitura para valer de ‘Grande Sertão’. O Guimarães teria horror desse mundo digital, com as características que ele tomou, né? Essa pressa, esse descaso com a qualidade, com a minúcia, com o detalhe, com a profundidade. Ele é vertical na profundidade. Tem uma densidade metafísico-religiosa em grande sertão que é rara em qualquer autor do mundo”, diz.

Gianetti destaca a atualidade e a coragem do tema do amor inalcançável entre os personagens centrais. Ele faz, inclusive, uma aposta:

“É de uma tremenda ousadia. É quase inconcebível que uma pessoa introvertida, muito tímida, tenha ousado criar um enredo em torno de dois personagens (como esses). Na minha opinião, estou falando por mim agora, Riobaldo é bissexual e Diadorim é transexual. Quer dizer, é uma coisa que acompanhou durante muito tempo a vida”.

Quem era Guimarães Rosa?

Mas, afinal, quem era esse homem que subverteu a língua, revolucionou a literatura e retratou a tragédia humana? Rosa era médico e diplomata, mas se realizou como escritor. Suas obras foram atravessadas por sua personalidade mística.

Para se ter ideia, ele adiou por quatro anos a posse na Academia Brasileira de Letras porque temia não resistir à emoção. Em novembro de 1956, ele toma posse. E deu-se a premonição: três dias depois, morreu de infarto aos 59 anos.

Praia do Diabo, no Rio de Janeiro — Foto: Leo Vieira/CBN

O sobrenatural é praticamente um personagem da obra. Biógrafo de Rosa, Leonêncio destaca que nem o apartamento onde vivia, no Rio de Janeiro, escapou da aura mística.

“Uma vez, ele contou que ele estava escrevendo um trecho de ‘Grande Sertão’ e rolou no chão com o demônio… Teve uma briga feia com o ‘demo’ na sala de casa. Mas olha só que interessante: o prédio dele ficava justamente em frente àquela praia, entre o Forte de Copacabana e o Arpoador, que se chama Praia do Diabo”, conta.

A CBN também foi atrás das raízes do escritor e encontrou em Cordisburgo a Dôra Guimarães, prima de terceiro grau do escritor. Ela é uma das responsáveis pelo Grupo de Contadores de Estórias Miguilins. Sobre os neologismos tão temidos pelos leitores, ela admite que há termos inventados, mas destaca que muitas das palavras são corriqueiras no interior de Minas.

“Eu penetro muito na obra dele para narrar e não para teorizar. Porque é meu universo, era o jeito que meus tios falavam, o jeito que eles contavam histórias. Muitos termos da obra que todo mundo fica sem saber o que é, eu sei o que é… Por exemplo, quando ele fala assim: ‘Ah, meus buritis levados de verde’. Eu vi uma teórica, uma professora, tentando interpretar essa palavra ‘levados’. Olha, ‘levados’, na minha terra, é advérbio de intensidade. Falavam assim: ‘Oh, menino levado de bonito’. Eu acho legal quando eu encontro um termo na obra que é meu, é familiar”, divide.

Guimarães Rosa — Foto: Divulgação/APM

Dôra conta que o escritor, ainda menino, frequentava a venda do pai, esperando chegar o trem. As pessoas desciam e iam no armazém comprar alimentos. Rosa ficava atrás do balcão, ouvindo histórias. Um dos maiores escritores do Brasil, que depois viria a colecionar cadernos de anotações, já rondava por ali, na venda de “Seu” Florduardo Rosa.

Novas traduções de ‘Grande Sertão’

Com duas traduções saindo do forno, para o inglês e para o alemão, a saga contada pelo jagunço Riobaldo joga luz na história do Brasil dos anos 1950, com seu sonho desenvolvimentista, partindo de um lugar inóspito, mas mítico: o sertão.

E como transpor para outra língua um texto tão peculiar, com centenas de neologismos e lampejos de poesia? A tradutora australiana Alisson Entrekin pôde entregar uma versão da obra em inglês após 12 anos:

“Se o autor fez alguma coisa que fugiu das regras e das normas da sua língua, a tradução também tem que fazer isso. Agora, uma vez que a gente sai do que é normal, do que é esperado, e entra nesse campo de invenção, quase tudo é possível. Então, parece uma missão impossível, e de certa forma é, mas, por outro lado, é muito reproduzível. Porque as palavras são muito plásticas”.

A tradução sai em 2027 pelas editoras Simon & Schuster, para Canadá e Estados Unidos, e pela Bloomsbury, para Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Alison, que já traduziu Chico Buarque, Paulo Lins e Carla Madeira, diz que Rosa vai “chacoalhando a linguagem”. A partir disso, ela se sentiu à vontade pra poder banguçar e brincar com o inglês.

Guimarães Rosa — Foto: Divulgação/APM

A reportagem da CBN enviou frases do livro em português para saber como ficou a “bagunça criativa” da Alison. Uma dessas frases de Rosa diz: “Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem; ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos”. No livro de Alison, que recebeu o título de “Vastlands: The Crossing”, virou: “Let me explain, sir: when the devil reigns in a man, in the curlies of a man — he’s either a ruined man, or a foeful one”.

Para a tradutora, “Grande Sertão” está na prateleira de grandes obras da literatura mundial, como “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e “Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Como uma obra prima que se preze, ela trata de questões universais que seguem atuais. Ali, o leitor vai encontrar a violência e a desigualdade da formação do Brasil dos anos 1950, ainda rural, oligárquico e patriarcal, mas também as dores e tragédias da condição humana, como a morte e o amor inalcançável de Riobaldo pelo jagunço Diadorim, a sua neblina… Também nas trilhas secas do sertão estão a guerra e o sentido de justiça e vingança.

Os 70 anos de “Grande Sertão” ainda prometem muitas homenagens. O dia 16 de julho de 1956 é só um marco perto da grandiosidade de Guimarães Rosa. Tudo o que se contar sobre o autor mineiro ainda será pouco.

Para encerrar esta travessia em busca das veredas do Grande Sertão, vale lembrar: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.



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