abril 11, 2026

Guerra afeta brasileiros no Líbano e expõe rotina de medo: 'cada um está aguardando a morte como destino'


Eu estava em Beirute quando aconteceu esse ataque. Caiu bomba perto de mim, perto da gente. Uns 200 metros. Foi um barulho muito forte, sensação forte…”. Hussein Ezzddein mora no Brasil há 15 anos. Após dois anos sem ver a família, foi visitá-los no Líbano, na capital, Beirute, e quase foi alvo dos ataques israelenses. Ele espera para conseguir voltar para casa. Enquanto isso, vive o drama de uma guerra.

Mais de 100 ataques em menos de 10 minutos. Foram mortas mais de 300 pessoas, com mais de 1,2 mil feridos, e ainda há desaparecidos. Vi muita gente ferida, muita gente na rua, muitos mortos — muitas crianças, muitas mulheres. A gente começou a ajudar. Quando as bombas começam a cair, elas destroem tudo. Os vidros caem em cima da gente, começa a cair tudo. As bombas não param de chegar“, relata.

“Esse dia, na verdade, a gente nunca vai esquecer. É muito triste o que o povo libanês está vivendo aqui”

Já a brasileira Carla, que vive no Líbano há mais de 20 anos e atua como guia turística, construiu a vida a cerca de 14 quilômetros de Beirute, mais ao Sul, onde acompanha com crescente apreensão as últimas ofensivas sobre o país que, com o tempo, tornou-se a casa dela. “Eu ouvi muitos ataques próximos da minha região, bombardeios… Às vezes eu vejo fumaça. Temo, sim. O Líbano é um país muito vulnerável. Complicada a situação do Líbano”, afirma.

Destruição no Líbano após bombardeios israelenses — Foto: Arquivo pessoal/Yousef Shehimi

Ofensiva de Israel amplia tensão

Nas últimas semanas, Israel tem promovido intensos ataques aéreos ao Hezbollah, avançando por terra sobre parte do território do país vizinho, especialmento no Sul. A ofensiva, que ocorre paralelamente à guerra no Irã, foi deflagrada após o grupo terrorista xiita disparar mísseis contra Israel em apoio ao Irã, no início de março.

O Líbano tem quase seis milhões de habitantes. Segundo dados recentes da ONU, cerca de um sexto da população precisou deixar as casas por causa da guerra no Oriente Médio. O cenário descrito pela organização inclui destruição de infraestrutura e falta de acesso a serviços básicos.

Na capital, Beirute, bombardeios israelenses atingiram áreas residenciais e deixaram centenas de mortos. Tatiane Francisco trabalha como psicóloga pelo Médicos Sem Fronteiras e tem acompanhado de perto o drama da população libanesa em meio aos ataques israelenses.

Destruição no Líbano após bombardeios israelenses — Foto: Arquivo pessoal/Yousef Shehimi

Beirute está lotada de pessoas que buscam refúgio na capital. Os abrigos estão, em geral, superlotados. Faltam colchões, cobertores e itens de higiene. Muitas pessoas ainda estão nas ruas, dormindo em barracas. É possível, sim, ouvir bombardeios diários, além de drones e jatos sobrevoando a capital”, conta.

“Não sabem quando vão poder retomar suas vidas, nem se ainda terão suas casas. É possível perceber um sentimento generalizado de insegurança e incerteza. Tudo isso vai se somando e aumentando a carga de estresse e de cansaço, produzindo enorme sofrimento e com grande impacto na saúde mental da população”

Entre avanços e pausa, o conflito entre Israel e o grupo xiita Hezbollah se arrasta há décadas, como um ciclo que insiste em se repetir. Enquanto isso, é a população quem carrega o peso dessa história, como relata Yousef Shehimi, morador de Beirute, ao expressar a tristeza de viver preso em uma guerra que parece não ter fim.

É um pavor total. Todo mundo está desesperado e perdido, principalmente porque não há mais expectativa. Algumas pessoas que conseguem estão saindo. Quem fica espera por um novo ataque, sem saber quando nem onde. Está totalmente imprevisível, diferente de quando os ataques se concentravam mais no sul do Líbano (…). Não há expectativa de acordo. Falam em negociações, em contatos, em algum Estado tentando intervir para resolver a situação, mas, até agora, não há nada”, desabafa.

“A pior parte é que cada um está aguardando a morte como destino”

O filho de Yousef acompanha a guerra de São Paulo, junto com mais de seis milhões de libaneses que vivem no Brasil. A comunidade libanesa aqui é a maior diáspora do mundo — número que supera a própria população do Líbano. Já segundo dados do Itamaraty, estima-se que 22 mil brasileiros vivam no território libanês.



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