fevereiro 12, 2026

Lado B do carnaval: compositor André Diniz defende fim da 'parafernalha' na disputa de sambas-enredo


Faça esse teste: em uma aglomeração festiva, comece “explode coração…” Alguém, por certo, vai completar: “na maior felicidade…”. Experimente outra: “é hoje o dia…” E um coro poderá se formar: ‘da alegria..’. Sambas-enredo clássicos, o primeiro do Salgueiro (1993) e o segundo da União da Ilha (1982), são a trilha sonora afetiva do Rio e do país, que surgem do Carnaval para o mundo. Mas quem escolheu aquelas palavras e ordenou aqueles versos? No quarto episódio da série O Lado B do Carnaval, o CBN Rio abre espaço para os compositores de samba-enredo ao contar a história de André Diniz, 20 vezes campeão pela Unidos de Vila Isabel.

“Ele não é o artilheiro. É o camisa 8. Ele coloca o artista na cara do gol. Não somos o palco, somos o canhão de luz para iluminar os outros”, resume. “A gente nasceu para iluminar os outros”.

Diniz é daqueles personagens que carregam na trajetória a memória de mudanças da festa. Se hoje mais de 10 pessoas assinam um mesmo samba-enredo e , segundo ele, poucos realmente são compositores nesses grandes grupos que se dividem em várias agremiações, nos anos 1990 a história era outra: compositor da Vila que fosse pego escrevendo para outra escola levava punição severa.

“Naquela época, pra ser compositor da Vila, eles te davam um tema, você fazia o teu samba, ia pra quadra, defendia e era aprovado ou não num concurso. Depois de ser aprovado no concurso, você tinha que ficar um ano na ala de compositores sem participar de disputa.”

Diniz calcula ter mais de 200 sambas-enredo compostos desde a década de 1990, da Vila à Argentina, passando por várias escolas da Série Ouro, Grupo Especial, São Paulo e até em São João da Barra, no Norte Fluminense. Percebe, hoje, uma influência cada vez maior de outros setores das escolas nas composições. Tanto que ele aposta: “A Vila Canta o Brasil Celeiro do Mundo” (conhecido como “Festa no Arraiá”), um dos grandes sambas do século XXI, que assinou ao lado de parceiros como Arlindo Cruz e Martinho da Vila, hoje não existiria.

Em 2013, a Vila Isabel foi patrocinada por uma empresa ligada ao agronegócio e a sinopse do enredo abria um outro caminho para o samba. Ao lado dos parceiros, Diniz decidiu contar a história da vida no campo. A carnavalesca Rosa Magalhães mudou a concepção do desfile para ficar com a obra.

“Ela falou: ‘bota um galo na primeira ala e o galo cantou. E vamos embora. Bota quatro fantasias diferentes e eu encaixo no seu samba’.

Aí a Rosa falou — por isso que a Rosa é Rosa — ela virou para mim e falou: ‘meu filho, o que eu faço aqui é perfumaria. Isso aqui é a escola de samba. Quem tem que mandar é o samba’.”

Dos 20 sambas-enredo que ganhou na Vila Isabel, 18 foram com o parceiro Evandro Bocão. Juntos, e com Arlindinho Cruz, eles assinam o deste ano, aclamado pela escola em decisão que nem precisou de disputa. A homenagem a Heitor dos Prazeres ganhou as quadras, a Pedra do Sal e as redes sociais.

“Eu não conheço nenhum artista de área nenhuma que consiga ter a produção em tão pouco tempo que dez ou doze compositores têm de fazer trinta, quarenta obras em cinquenta dias.”

Ele prega que o compositor precisa se expandir, criar para além do Carnaval, e lista limitações, da remuneração nas escolas. E faz, também, um mea-culpa do grupo: o gigantismo das disputas criou o que chama de “parafernalha”, acessórios que reduzem ainda mais o papel dos sambistas.

“Mas se o André fizer na Vila e isso acabar convencendo alguns compositores de que a parafernalha não é necessária… Se o André ganhou sem nada daquilo no samba, vamos tentar. E se o André fizer na Vila, o Lequinho fizer na Mangueira, o Claudio fizer na Beija-Flor, o Samir fizer na Portela, o Fred e o Xande fizerem no Salgueiro, a gente começa a desmobilizar o monstro que nós mesmos criamos, que é a parafernalha. Mas eu acho que a gente precisa voltar para a casinha, fortalecer as nossas alas de compositores em casa, fortalecer o pertencimento e, assim, a gente vai ganhar mais respeitabilidade dentro da nossa comunidade.”

E qual é a receita para um samba-enredo de sucesso? As pessoas têm que cantar.

“Hoje, uma coisa que eu fico mais preso é: as pessoas têm que cantar, cara. Samba sem atropelo, as pessoas poderem cantar, nota esticada, que eu adoro. Uns gravezinhos para poder valorizar os agudos. Mas… fazer bonito. Emocionar as pessoas. Mudar o nível espiritual através da música. A beleza é a missão de todo artista. Não é a nota”.



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