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"O livro é uma alquimia muito rara de jorro e cálculo", diz Eduardo Giannetti

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julho 11, 2026
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"O livro é uma alquimia muito rara de jorro e cálculo", diz Eduardo Giannetti


É assim que o escritor, economista e imortal da Academia Brasileira de Letras, Eduardo Giannetti, define uma das principais obras da literatura brasileira, o livro Grande Sertão: Veredas, escrito há 70 anos pelo seu conterrâneo, o mineiro Guimarães Rosa. Giannetti ocupa, desde 2022 a cadeira de número 2 da ABL, a mesma que pertenceu a Rosa. Nessa conversa com a CBN, ele fala do encantamento com a obra. Mas não foi fácil – nem pra ele. Pra chegar nesse estado o acadêmico teve que se dispor para Grande Sertão, transpondo as dificuldades e os estranhamentos comuns a quem entra em contato com a obra. O jorro do título seria tudo o que envolve o misticismo, o sagrado, o religioso e a metafísica, que estão pelas mais de quinhentas páginas do livro. “Grande Sertão é uma coisa quase sobrehumana”, defende Giannetti, que também é filósofo. Já o cálculo seria fruto da “megera cartesiana”, o estudo aprofundado que Rosa fez pra chegar a praticamente inventar um novo dialeto pra contar a saga dos jagunços pelo sertão mineiro. Confira a entrevista na íntegra:

CBN – Você costuma dizer que ler Grande Sertão: Veredas foi um enfrentamento. Como foi essa experiência? Você conta que fez observações, página por página. Isso, de alguma forma, te ajudou a entrar de vez, na obra?

GIANNETTI – Li Grande Sertão a primeira vez ainda adolescente. Li com muita reverência porque cresci numa casa de pais mineiros que tinham grande admiração pelo Guimarães Rosa. Minha mãe venerava o Guimarães Rosa. Mas não tinha maturidade para saborear a qualidade literária e filosófica do que eu estava lendo. Depois, voltei a ler quando fui eleito para a cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras, mas fiz a leitura com certa rapidez. E aí, a Companhia das Letras, a minha editora, resolveu fazer edição comemorativa dos 70 anos de Grande Sertão e me convidou para contribuir com o texto que vai ser publicado em julho. Aí eu falei: “agora vou enfrentar para valer. Vou pegar esse texto, fazer uma leitura microscópica e ver até onde consigo chegar na absorção de tudo que ele oferece”. Então, passei dois meses debruçado, anotando, tintim por tintim, tudo que me ocorria. É uma coisa quase sobre-humana. O sertão, no fim das contas, é quase um mundo inteiro a sós. Você penetra num outro universo e passa a viver nele. É um transporte ficcional como poucos que ele produz quando o leitor resolve enfrentar o desafio. Me permitiu avaliar de maneira mais generosa a grandeza desse patrimônio da cultura brasileira.

CBN – Você fala também dessa coisa da falta de pressa da obra, nessa sociedade acelerada em que a gente vive hoje. Me ative muito nisso, pelo paradoxo que é. Hoje eu saio do celular correndo e vou ler Guimarães Rosa. E nisso há um baque, claro.

GIANNETTI – Se a gente for encarar a obra como algo para ser encerrado, vai ser difícil. É para ser sorvido com calma. O livro exige atenção, disposição do leitor de ser co-criador, de compartilhar com Guimarães a descoberta. E a grandeza da linguagem que está sendo criada. Ele vai inventando possibilidades de termos e de gramática. Cada frase do Guimarães Rosa é uma surpresa. Nosso ouvido e nossa fala não estão familiarizados. E ele próprio dizia que queria propiciar ao leitor uma surpresa a cada linha, e ele faz isso. É a história para despertar a pessoa da inércia. É o contrário do mundo de hoje, em que tudo é rápido, mastigado. As pessoas têm dificuldade de fixar atenção em alguma coisa de maneira mais refletida. Por isso digo que Grande Sertão está mais vivo e necessário que nunca. Não conheço na literatura um antídoto melhor para essa narcose digital, do que uma leitura para valer de Grande Sertão. O Guimarães teria horror desse mundo digital com as características que tomou. Essa pressa, esse descaso com a minúcia. Ele é vertical na profundidade. Tem uma densidade metafísico-religiosa em Grande Sertão rara em qualquer autor do mundo. A coisa que mais me assombra é que as novas gerações não tenham mais a postura generosa, de atenção reflexiva que uma obra como essa demanda.

CBN – O livro é uma joia, né? E fico me perguntando se Guimarães Rosa é tão lido quanto deveria no Brasil… Me parece que não é valorizado.

GIANNETTI – Existe uma deficiência brasileira no cultivo de certa sofisticação literária, de disposição de se debruçar com calma sobre algo que demanda trabalho. Grandes prazeres na vida não são, muitas vezes, imediatamente prazerosas. Você não gosta de música clássica, por exemplo, na primeira vez. Você tem que insistir, e, de repente, sem saber muito bem porquê, acaba adorando aquilo. É pra chegar nas veredas, né? E aquilo passa a ser importante para seu bem-estar. É como tomar um banho de mar quando a água está um pouco fria. A primeira sensação não é boa. Você vai aos pouquinhos, vai testando. De repente, seu corpo se acostuma e é uma delícia incomparável um banho de mar. Mas exige a disposição de enfrentamento. Você não vai, ao colocar o pé e sentir que a água está muito fria, sair correndo e nunca mais chegar perto. Tem que insistir. É como um grande amor que começa difícil, mas que, de repente, acontece.

CBN – Queria entrar num terreno do onírico, do sobrenatural. O próprio Guimarães Rosa falava que foi como se ele tivesse entrado num transe para escrever Grande Sertão Veredas.

GIANNETTI – Uma obra como Grande Sertão é uma alquimia muito rara de jorro e de cálculo. Tem um elemento quase mediúnico, que ele próprio relata, de estar recebendo isso como se fosse alguma coisa que vem de fora, e que ele está transcrevendo. Ao mesmo tempo, tem uma quantidade de trabalho e de estudo e de cálculo inacreditável em cada página. Ele combina esses dois elementos, a entrega, a pulsão, a espontaneidade, de um lado, e estudo e carpintaria literária, de outro. Acho que aí está uma das pontas do mistério, que é o surgimento dessa obra-prima. Talvez isso que faça ela ser magistral. Um autor como Machado de Assis é claramente hiperconsciente. Tudo ali é milimetricamente esculpido, pensado. Não tem esse elemento de entrega, de pulsão, de uma pessoa que está como que tomada por forças além da sua vontade. Então, Guimarães realmente junta essas duas coisas de maneira única.

CBN – Uma impressão que a obra traz, nas primeiras páginas, é de você estar lendo um livro em outra língua, que você até entende, mas que, no fundo, tem que ficar pensando para “traduzir”.

GIANNETTI – Eu acho que, insistindo um pouco, o leitor vence isso. Você se acostuma e, de repente, sem perceber, você está dentro desse universo. Tem um instrumento de trabalho que me ajudou, é o livro chamado O Léxico de Guimarães Rosa. É muito bom esse trabalho, são 800 verbetes. Ali você tem um pouco de como surge uma palavra e como ela é usada na obra do Guimarães. É um instrumento muito útil de familiarização com esse universo linguístico.

CBN – Tem algum aspecto de Grande Sertão que te chama mais atenção?

GIANNETTI – Vou dizer o que ele dizia. Grande Sertão tem quatro camadas: o cenário e a realidade sertaneja; o enredo; a poesia, e o valor religioso-metafísico. E ele diz que esses quatro componentes vêm em ordem crescente de importância. Ou seja, a dimensão que ele considerava mais fundamental é o valor religioso-metafísico. E estou de acordo. Acho que tudo o resto é o caminho para isso. Mas com a ressalva de que o texto está colado na expressão do valor metafísico. Não é uma coisa externa. Ele conseguiu uma união entre a fala e a forma, que é a expressão da poesia. E é isso que vai dar no infinito, enfim, nos diversos caminhos. E é na travessia que se chega à vereda.

CBN – O personagem Diadorim chama muito a atenção e me parece que a relação entre os personagens Riobaldo e ele não foi ainda estudada de forma aprofundada. O que você acha? E você considera que Guimarães Rosa foi ousado ao criar essa história entre os dois jagunços?

GIANNETTI – Ainda mais pela época em que isso foi escrito, foi, sim, de uma tremenda ousadia. É quase inconcebível que uma pessoa introvertida, muito tímida, tenha ousado criar um enredo em torno de dois personagens como esses. Agora, a minha opinião, Riobaldo é bissexual e Diadorin, transexual. Falo por mim, é o que eu acho.

CBN – Aí, agora quem ousou e muito foi você…. (risos)

GIANNETTI – Olha só, porque já menino, Diadorim tinha uma coisa que o acompanhou durante muito tempo da vida, essa dualidade de uma menina que se passa por menino. Na minha opinião, o Riobaldo é bissexual porque sente atração por pessoas de ambos os sexos. E eu tenho uma forte suspeita de que o Diadorim é transexual.

E não é muito tratada essa questão, né?

GIANNETTI – Eu, por tudo que eu li, e a bibliografia secundária é gigantesca, não duvido que alguém já tenha dito tudo, mas certamente ainda não se aprofundou devidamente essa questão. Pelo menos é a impressão que eu tenho por tudo o que eu vi.



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