abril 23, 2026

Projeto reúne dedicatórias de livros presenteados e incentiva prática: 'São duas histórias em uma'


“Existem muitas histórias nesta história. Muitas coisas acontecem, o que nos dá a percepção de que nada acontece. Mas não é assim a vida? É assim que envelhecemos: um amontoado de histórias na nossa própria história. E para mim é um privilégio dividir a minha com você”, diz a mensagem de Morgana para Ícaro.

Ela escreveu a dedicatória ao presenteá-lo com ‘Cem Anos de Solidão’, obra de Gabriel García Márquez, uma das mais importantes da literatura colombiana e sul-americana, que conta a saga da família Buendía ao longo de um século.

“O livro com dedicatória vem com duas histórias, “uma que começa no primeiro capítulo e uma que começou antes de se passarem as páginas”, afirma a belorizontina Mariana Gogu, de 46 anos, a fundadora do projeto Eu Te Dedico. Ela mantém um arquivo virtual reunindo textos de diversas pessoas, com um site no Tumblr e também um perfil no Instagram, que conta com 45 mil seguidores.

Dedicatória no livro ‘Cem anos de solidão’, de Gabriel García Márquez, divulgada pelo projeto Eu Te Dedico. — Foto: Divulgação

As publicações são padronizadas e trazem a capa do livro (geralmente destinado a uma pessoa querida), junto à fotografia da mensagem escrita na folha de rosto e também uma transcrição digital da dedicatória — para que o público não tenha problemas em compreender caligrafias tão diferentes. Assim, as histórias dos que se presenteiam ficam misturadas às contidas originalmente nas páginas.

A inspiração para o projeto surgiu em 2012, da paixão de Mariana em passear por sebos e fazer sua “caça ao tesouro”, abrindo livros aleatoriamente para procurar por dedicatórias, que fotografava para si mesma.

Foi aí que veio a ideia de criar um blog para compartilhá-las. Gogu conta que logo resolveu abrir o arquivo para contribuições de outras pessoas e notou uma rápida adesão, que foi crescendo com os anos. Desde então, ela recebeu mais de 2700.

“Hoje em dia, é um arquivo grande, com centenas e centenas de dedicatórias publicadas. É um registro e também uma forma de incentivar as pessoas a manterem ou criarem esse hábito de escrever dedicatórias e dar livros de presente.”

Formada em publicidade e em design gráfico, Mariana conta que teve vontade de cursar Letras, mas acabou se relacionando com a literatura, para além da leitura, por meio do arquivo — que não é monetizado. “A minha ideia sempre foi manter como um projeto pessoal e para as pessoas que gostam acompanharem.”

“Dá para ficar dias lendo. São muitas histórias interessantes. Tem gente que manda só a transcrição da dedicatória, e tem gente que manda a história que está por trás mesmo, tipo: qual foi o motivo que levou a comprar aquele livro? Para quem ela está dando o livro?”

Mariana Gogu, criadora do projeto Eu Te Dedico. — Foto: Arquivo pessoal

O Eu Te Dedico inspirou uma série documental em 2018. A coprodução do canal Arte1 com a Academia de Filmes levou o mesmo nome, e seus seis episódios contam as histórias por trás das dedicatórias de livros.

A série “explora a relação que um livro pode criar entre as pessoas”, com cada capítulo se debruçando sobre uma dedicatória a partir dos depoimentos das duas pontas do texto, discutindo também como as obras se mesclam à vida dos entrevistados.

Mariana conta que não publica todas as contribuições que recebe, ainda que tenham valor sentimental. O critério é o interesse que o texto pode ter para terceiros e também a diversidade entre dedicatórias de amizade, amor, para si mesmo, colegas de trabalho, namorados, pais, filhos, etc.

Apesar do volume de textos recebidos em um trabalho que faz sozinha, a publicitária e designer se sente satisfeita em nutrir um projeto sobre emoções humanas em tempos de artificialidade na internet, e gostaria de transformá-lo em livro.

“É um oásis no meio do Instagram por ser uma coisa que é real, de verdade. Não é imagem fake, produzida. Eu nem edito as fotos que eu recebo, e não edito erros de escrita nos textos. E eu acho que as pessoas se identificam com isso, de achar esse canto de verdade, uma coisa meio rara nas redes sociais.”

Manifesto do projeto Eu Te Dedico. — Foto: Divulgação

Entre os autores preferidos dos dedicantes estão Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Annie Ernoux, Aline Bei, Carla Madeira e Gabriel García Márquez.

Abaixo, confira cinco dedicatórias selecionadas por Mariana Gogu para a reportagem.

‘O Processo’, de Franz Kafka, com dedicatória. — Foto: Arquivo Eu Te Dedico

‘O Processo’, de Franz Kafka (enviada por Leo Beck)

“Pelas madrugadas insones
de boas conversas e
muita bebida…”

Ele conta: “Este título fazia parte da minha tão amada biblioteca pessoal (com mais de 300 livros), que foi toda jogada fora pela minha ex-mulher logo depois da nossa separação. Depois do divórcio, conheci o casal Nina & Bruno e rapidamente nos tornamos grandes amigos, dos que ficam juntos em um apartamento, bebendo whisky, rum, cerveja ou tequila e, entre cigarros, conversando sobre a vida até o sol nascer. Este livro me foi dado por eles, sem data especial, simplesmente porque passaram em um sebo e se lembraram de mim.”

‘Antologia Poética’ de Carlos Drummond de Andrade, com dedicatória. — Foto: Arquivo Eu Te Dedico

‘Antologia Poética’, de Carlos Drummond de Andrade (enviada por Violeta Morato)

“A Violeta Morato,
o abraço e a simpatia de Carlos Drummond de Andrade.
Rio, 2. XI. 85””

Ela conta: “Andava eu lá pelos vinte e poucos anos na faculdade a estudar a obra de Drummond, pois bem que chegava o dia do aniversário dele e eu consegui o telefone dele na lista mesmo. Com toda falta de temor reverencial, liguei para cumprimentá-lo e esta foi apenas a primeira de muitas ligações que se seguiram durante alguns anos. Marcamos um encontro no Rio em 1986, mas quando lá cheguei soube que Julieta estava internada e o resto da história você já deve saber. Nunca nos encontramos, nos falávamos algumas vezes por ano. Tínhamos em comum, a mineiridade e a distância da nossa terra. Um dia chegou a minha casa, assim sem aviso um pacote cujo conteúdo era um livro (Antologia Poética) com esta dedicatória: sóbria e carinhosa, como ele mesmo.”

‘A Insustentável Leveza do Ser’, de Milan Kundera, com dedicatória. — Foto: Arquivo Eu Te Dedico

‘A Insustentável Leveza do Ser’, de Milan Kundera (enviada por Bárbara)

“Para você, que me para e olha,
Que me chamou para dançar em Fevereiro.
Que consta nos meus registros por aí.
Que vai comigo até o dia clarear,
Pisotear flores ao relento
Debaixo de uma blue moon.
Do seu menino bonito,
Amo você.”

‘O Corpo Encantado das Ruas’ de Luiz Antônio Simas, com dedicatória. — Foto: Arquivo Eu Te Dedico

‘O Corpo Encantado das Ruas’, de Luiz Antônio Simas (enviada por leitor anônimo)

“Baiano, compartilho com você esse livro como quem divide um segredo bonito: que a vida pulsa mais forte nas encruzilhadas, nos encontros improváveis, nos afetos que se (re)inventam nas esquinas. Professor Simas fala da rua como espaço de saber, corpo e encantamento – e eu acredito que assim também é a paixão: dança sem destino, que aprende ao pisar no chão e acontece sob os pandeiros do boi da Floresta. Nosso encontro tem sido leve, como um samba bom no fim de um domingo, e intenso como o calor da Bahia no coração. Que essas páginas te façam companhia e ecoem o que somos: um afeto bonito, sem pressa, com cheiro de mar, som de tambor e alma de rua. Com carinho, Carioca. 17/07/2025.”

Ele (a) conta: Tinha o estado do Espírito Santo no meio do caminho. Mas São João tem dessas coisas e providenciou esse encontro entre um baiano e uma carioca em São Luís do Maranhão, a ilha do amor.

‘Destrua Este Diário’, de Keri Smith, com dedicatória. — Foto: Arquivo Eu Te Dedico

‘Destrua Este Diário’, de Keri Smith (enviada por Marcilio Lima)

“Odézio,
para deixar de
lado o perfeccionismo
em relação aos livros,
para abri-lo em mais
de 90° e na tentativa
de acabar com esse TOC,
por favor,
‘destrua este diário’
PS.: Feliz Aniversário!
Marcilio Lima”

Ele conta: “Dei de presente esse livro para um amigo que é super cuidadoso com os seus livros. Pega neles como se pegasse em taças de cristal, nunca grifou uma frase, não dobra uma orelha e não abre em mais de 90 graus. Uma tentativa de mostrar que o que importa é a história e não as páginas e que um livro pessoal fica bem mais interessante quando dá pra ver que foi usado. Presente perfeito. E ele gostou!”





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