Escritor italiano Sandro Veronesi volta ao Brasil com ‘Caos Calmo’: ‘Aprendi o que é saudade’

Depois de conquistar o Brasil com o fenômeno literário “O Colibri”, o escritor italiano Sandro Veronesi veio pela primeira vez ao país em 2025, lançando “Setembro Negro” na Flip. Menos de um ano depois, está de volta apresentando “Caos Calmo”, escrito em 2005, que chegou a ser lançado pela Rocco, agora reeditado pela Autêntica Contemporânea.
Em entrevista à CBN no evento de lançamento na Livraria da Vila da Avenida Paulista, Sandro Veronesi falou sobre o fato de que a maior parte de seu público brasileiro leu primeiro os livros que ele escreveu depois:
“É a primeira vez que isso acontece. A maioria das pessoas que eu encontro aqui ainda não leram, estão lendo agora. Para mim o caminho foi o inverso, não consigo imaginar. Mas quero esperar que haja familiaridade, que seja possível reconhecer simplesmente um livro meu. Mas claro que nesses 20 anos eu não sei o que aconteceu com o livro, se está envelhecido, se é um livro de época, não faço ideia”.
“O Colibri” apaixonou o público com o protagonista-narrador Marco Carrera, resiliente e positivo diante de uma série de coincidências adversas. Em “Setembro Negro”, outro personagem adorável: Gigio Bellandi, um pré-adolescente que descobre o amor em uma viagem de férias no litoral da Toscana.
Já em “Caos Calmo” conhecemos o executivo de televisão Pietro Paladini, que pode despertar sentimentos conflitantes. Depois de salvar uma desconhecida de se afogar, descobre que a própria esposa morreu. A partir disso, acompanhamos seu estranho processo de elaboração do luto.
Sandro Veronesi escreveu a obra há mais de 20 anos, mas disse que nunca a esqueceu. Entre os motivos está a adaptação para o cinema, com o ator Nanni Moretti no papel principal. Lançado em 2008, o filme acabou gerando controvérsia na Itália, especialmente entre a comunidade católica, graças a uma pesada cena de sexo e uma referência religiosa.
“O filme era muito bom. Eu não tenho a ver com o filme, não o escrevi, mas de minha parte era importante que a cena fosse pesada, como é pesado o capítulo do livro. Devo dizer que, no fim das contas, fez bem economicamente ao filme porque as pessoas queriam ver essa história”, lembrou, ressalvando acreditar que hoje em dia a polêmica não aconteceria.
No tour brasileiro, o escritor passou também pela Embaixada da Itália em Brasília e pel’A Feira do Livro, no Pacaembu, em São Paulo. Embora tenha se apaixonado pelo Brasil no ano passado em Paraty, que definiu como “pequeno paraíso”, Veronesi garante que não se decepcionou ao conhecer as cidades maiores. Arquiteto de formação, aproveitou para contemplar nosso urbanismo:
“São mundos totalmente diferentes, mas eu gosto de cidades insanas, cidades loucas, onde há uma utopia, uma ideia. De qualquer forma é Brasil. E eu entendi o que é a saudade. Porque quando alguém volta, digamos, para a Itália, todos esse sorrisos que você vê durante o dia… Porque as pessoas aqui sorriem, sorriem sempre. Te sorriem na rua, em todo lugar. E aí não tem mais. Todo aquele branco entre os lábios das pessoas desaparece. Isso é a saudade, é o que eu também senti falta, depois de uma semana, 10 dias no ano passado, voltei pra Itália e faltava alguma coisa.”
O italiano também declarou paixão pela arte brasileira, sobretudo a música – não à toa, o leitor vai encontrar em “Caos Calmo” uma referência a Caetano Veloso. O apreço aparece até no futebol: entre Palmeiras e Cruzeiro, escolheu o clube mineiro de origem italiana por ser fã do também mineiro Milton Nascimento. Também declara torcida para o Brasil na Copa do Mundo, já que a Itália não se classificou e a seleção é comandada pelo italiano Carlo Ancelotti.
Questionado sobre a possibilidade de voltar ao Brasil novamente em breve, disse esperar que sim. Está previsto para 2027 o lançamento aqui de “Terras Raras”, continuação de “Caos Calmo”, com os mesmos personagens, 10 anos depois.
Na Itália, acaba de lançar a coletânea de contos “Caducità”: “Reuni todos os que escrevi. Por 40 anos achei que tivesse perdido o primeiro, mas estava embaixo de outro manuscrito. É o marco zero da minha carreira. E os outros foram escritos em todas as décadas, nos anos 80, 90, 2000, 2010 e os muito recentes. É uma reunião da minha paixão pelos contos, seja como escritor, seja como leitor”. A obra ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.
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