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Denise Stoklos estreia na Flip peça sobre Dalton Trevisan, que fez 'radiografia da humanidade com crueza e amor'

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julho 23, 2026
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Denise Stoklos estreia na Flip peça sobre Dalton Trevisan, que fez 'radiografia da humanidade com crueza e amor'


Um dos maiores contistas e escritores brasileiros, Dalton Trevisan morreu no dia 9 de dezembro de 2024, aos 99 anos. Foram oito décadas de vida literária, ao menos 700 contos escritos e 36 livros publicados. Sua representante editorial, Fabiana Faversani, tem trabalhado para manter uma forte memória do legado de Trevisan, vencedor do Prêmio Camões de 2012.

No ano passado, Faversani foi uma das curadoras da exposição com diários e correspondência inédita que marcou o centenário do Vampiro de Curitiba. Agora, um espetáculo que ela idealizou junto com a atriz e dramaturga Denise Stoklos — criadora do método Teatro Essencial — terá sua estreia às 21h desta quinta-feira (23), na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Auditório da Matriz, na mesa mesa 7, ‘Do livro ao palco: Dalton, que tinha um cachorro‘. A direção é de Alessandra Maestrini.

A idealizadora considera uma honra ter o espetáculo apresentado pela primeira vez para “um público tão refinado quanto o da Flip e num festival que forma tantos leitores quanto a crítica”. Depois, a peça será encenada em outras cidades pelo país, como Bahia, Brasília, Curitiba e Florianópolis.

O espetáculo ‘Dalton Trevisan, que tinha um cachorro’ é um solo de Stoklos, com direção de Alessandra Maestrini. Inicialmente, o plano de Denise era basear a peça no conto em que o escritor narra a morte e a perda de seu cão, ‘Tiau, Topinho’, publicado em ‘Dinorá’ — livro de 1994 que acaba de ser reeditado pela Todavia.

Com o amadurecimento da ideia, foram incluídos outros textos no roteiro, como o conto ‘Noites de insônia’ e diversas ministórias publicadas em ‘Ah, é?’, ‘Arara bêbada’, ‘Pico na veia’, entre outros, além de trechos da correspondência e de diários de Dalton Trevisan. Os escritos que complementaram ‘Tiau, Topinho’ falam sobre velhice, infância, processo de escrita, e a relação de Dalton com outros escritores e com a insônia.

Capa do livro ‘Dinorá’, de Dalton Trevisan, publicado pela Todavia. — Foto: Divulgação

Um teatro essencialmente Dalton

Tudo começou com uma carta não respondida há mais de uma década. Fabiana Faversani conta que, após o falecimento do escritor, reencontrou em seu acervo uma correspondência que já havia lido, de Denise Stoklos, enviada no começo dos anos 2010. Stoklos se mostrava uma grande conhecedora e admiradora da obra de Dalton, e sinalizava seu interesse em levá-la ao teatro.

Mas a resposta do escritor nunca chegou. Apesar do silêncio, Dalton guardou a mensagem, o que não era um comportamento comum, explica a curadora. “Ele geralmente só guardava as cartas que respondia.”

Quando assistiu ‘Mary Stuart’, peça de Stoklos, Fabiana resolveu contatar a atriz e dramaturga. “Pedi desculpa pela demora na resposta à carta, mas disse que se ela tivesse interesse em produzir o Dalton Trevisan, eu autorizaria com todo prazer”, conta. A resposta veio com rapidez e muito entusiasmo, já com “o esquema montado”. “Ela tinha realmente pensado profundamente nisso nos últimos anos.”

“Eu achava que tinha muita correspondência entre o Teatro Essencial da Denise, muito minimalista, muito atenta ao gesto, ao significado das palavras, e a obra do Dalton, que é também muito concisa, muito profunda nesse sentido.”

Denise Stoklos, que representou peças em sete idiomas e apresentou-se em trinta países, destaca que, no método Teatro Essencial, o que vale é a presença do ator e sua interpretação, e o estilo de Trevisan refletiu essa forma de entender o teatro, que é a síntese. Alessandra Maestrini, diretora da peça, considera o ponto de contato entre eles “o fato de irem no cerne das questões, usando o mínimo possível para chegar no máximo”.

“A gente tem um contista que consegue, com uma frase, fazer um conto de imensa profundidade. E a gente tem a criadora do Teatro Essencial, que é só ela. Não tem cenário, não tem figurino, não tem mais nada, porque nós temos a essência.”

O encantamento de Denise com Dalton teve origem na admiração que sua irmã, a psicanalista Dayse Stoklos, nutria pelo trabalho do escritor. “Ela fazia contribuições, mandava notas com alguns acontecimentos que achava interessantes e ele os reescrevia. E, depois de publicados, a Dayse me mandava os livros dele. Assim eu o conheci e comecei também a gostar demais daquela literatura”, conta a atriz. Além da concisão, Denise destaca o olhar de Dalton para a violência humana.

“Uma das questões que me atrai demais na obra de Dalton Trevisan é o quanto ele é sucinto e o quanto ele aborda questões das atrocidades da vida real e as converte em pura ternura, e nos faz também encará-las de frente, vivendo toda a radiografia da humanidade com extrema crueza e amor.”

Fabiana diz que a troca entre Dayse e Dalton foi muito profícua quando se conheceram no final dos anos 90. A psicanalista deu várias sugestões à peça. “A Dayse é uma pessoa com muita sensibilidade literária, com ouvido muito bom para os pequenos dramas humanos e conhecedora da temática do Dalton.”

Alessandra Maestrini conta que foi importante entender marcas de temperamento e de estilo de Trevisan, fazendo uma costura entre criação e criador para que o espetáculo pudesse trazer para o primeiro plano tanto a obra quanto o autor, “com diálogo entre a pessoa e a persona”.

Um desafio da dramaturgia foi dar conta dessa multiplicidade e ao mesmo tempo respeitar a concisão tanto de Dalton quanto de Denise, situando o espectador no que ele já conhece — especialmente o da Flip, com muitos leitores do Vampiro de Curitiba — e ampliando essa visão. “Como fazer tudo isso? Mostrar um lado oculto de uma personalidade pública? Como dar essa volta de maneira sintética? Essa foi a nossa brincadeira. E chegamos lá, eu acredito.”

‘Tiau, Topinho’ mostra outro lado do escritor

O escritor curitibano Dalton Trevisan. — Foto: Dalton Trevisan/Acervo IMS

Cheio de vulnerabilidade, o texto ‘Tiau, Topinho’ foi extraído de um diário e mostra um lado pouco conhecido de Dalton Trevisan, que já tinha mais de 60 anos quando descreveu a dor da ausência de seu companheiro canino. A curadora de Dalton compartilhou anotações dos diários que mostram a relação “muito bonita” do autor com os animais para a construção do espetáculo.

“A obra dele tem momentos de violência e crueldade que ele relata da sociedade, mas essa relação dele com os bichos é muito terna, muito amorosa, muito afetiva, e a perda do cachorro é um momento em que ele se despe, um autor que a gente pouco conhece, que pouco aparece nos textos. Existe uma invisibilidade moral nos textos do Dalton, e aqui ele fala da sua própria dor, da solidão que sente, com a perda não só do Topinho, mas de várias pessoas que foram desaparecendo da sua vida por causa do envelhecimento.”

Fabiana ressalta que, apesar de mostrar um lado “muito humano com o escritor mais fragilizado”, Dalton também aparece muito engraçado. “O humor do Dalton é uma coisa que a Denise conseguiu explorar muito bem nessa peça, e que é pouco comentado. Os leitores vão conhecer essa faceta sensível, bem-humorada dele.”

Começou nesta quarta-feira a 24º edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Durante cinco dias (22 a 26 de julho), a cidade recebe em seu Centro Histórico leitores e escritores de todo o mundo para celebrar os livros e a cultura. O evento teve sua primeira edição em 2003, e desde então trouxe centenas de autores premiados às famosas ruas de pedra da cidade fluminense.

São destaque de 2026 os escritores Andréa del Fuego, Bethânia Pires Amaro, Ana Paula Tavares — vencedora do Prêmio Camões do ano passado –, Katie Kitamura, Paulliny Tort, Kamel Daoud, Milton Hatoum, Ernesto Mané, Zadie Smith, ministra Cármen Lúcia e o médico Dráuzio Varella. Tradição da Flip, neste ano a autora homenageada é a poeta paulista Orides Fontela, cujos versos nomeiam as mesas do Programa Principal da festa literária.

A Flip conta ainda com 44 casas parceiras que oferecem um circuito paralelo, como a Casa Sesc, que traz a intelectual e ativista americana Angela Davis junto ao escritor nigeriano Wole Soyinka, primeiro autor do continente africano a vencer um Nobel de Literatura. Nomes como Valter Hugo Mãe, Socorro Acioli e Conceição Evaristo também participam de eventos extras.

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.



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