‘Os Imortais’: Paulliny Tort diz que complexidade do sentir não é exclusividade humana

A escritora e jornalista brasiliense Paulliny Tort participou da 24º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em mesa junto a Andréa Del Fuego, na última quinta-feira (23). Seu novo romance ‘Os Imortais’, lançado pela editora Fósforo, foi o terceiro livro mais vendido do evento.
A obra acompanha um clã de neandertais durante o Paleolítico, há cerca de 40 mil anos. O grupo, que está em migração e sofre com a instabilidade climática e escassez de alimentos, se depara com representantes de outra espécie: um clã de homo sapiens (aquele que veio a ser o ser humano moderno). Os neandertais acabam incorporando uma criança sapiens, e com essa menina vão continuar sua jornada em busca de sobrevivência.
Nascida em 1979, Paulliny Tort também é autora do livro de contos ‘Erva Brava’ (Fósforo), que foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e finalista do prêmio Jabuti 2022; e do romance ‘Allegro ma non troppo’ (Editora Oito e Meio), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Em entrevista à CBN durante a Flip, a escritora falou sobre ‘Os Imortais’ e sua visão em relação à aventura humana no planeta Terra.
Livros de Paulliny Tort — Foto: Reprodução
Você narra uma época que hoje vemos com grande distância. Nossas sociedades vivem um momento de afastamento do que é natural e do que há de animal em nós. Com esse contraste que você traz ao nos apresentar o clã de neandertais mostrando muitas semelhanças conosco, podemos encontrar aquilo que é essencialmente humano?
Paulliny Tort: Olha, eu não sei se eu tive essa intenção, acho que não. Eu sei que isso varia muito de autor para autor, cada um tem seu processo. Alguns autores têm muito claro onde querem chegar. Para mim, a escrita é mais um estado de descoberta.
Então aparece na minha imaginação um personagem. No caso desse livro, foi o Homem. Apareceu a primeira cena dele, que é um encontro com um grupo de javalis que acaba se transformando em uma caçada. Naquele primeiro momento, eu não tinha muito claro quem era ele, nem quem eram aquelas pessoas.
Durante o processo de escrita, fui me aproximando para entender, fui me tornando mais íntima deles. Mas acho que não teve esse desejo explícito de provar alguma coisa sobre a humanidade.
Você optou por uma narração que, mesmo retratando uma era pré-linguagem, consegue transmitir emoções e pensamentos desses ancestrais de forma verossímil sem que pareçam simplórios. Como você encontrou essa voz para o seu livro?
Paulliny Tort: Esse narrador ou narradora, que eu imagino sem gênero, de certo modo, traduz. Ele conta para a gente o que ele está vendo dessas pessoas e faz a tradução da comunicação delas para nós.
Embora eu seja jornalista, tenho uma trajetória no curso de Ciências da Natureza. Tive a oportunidade de fazer um estágio de primatologia, e já faz um tempo que eu leio sobre evolução.
Eu acho que, quando a gente estuda um pouquinho sobre as emoções dos animais, quando a gente se aproxima dos bichos, começa a entender que eles têm uma vida interior riquíssima. Principalmente os mamíferos, mas também aves e outros animais, como os polvos. Inclusive, tem um livro maravilhoso do Peter Godfrey-Smith, chamado ‘Outras Mentes’, que é incrível, que fala justamente dessa inteligência impressionante dessa categoria de animais.
Quando a gente começa a tomar contato com isso, vemos que a complexidade do sentir não é exclusividade nossa. Ainda mais quando a gente vai para os primatas e para os grandes símios, como os chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. Então, o que a gente pode imaginar de outros humanos?
O mundo não foi feito para nós e existiu uma época em que esse mundo era habitado por outros humanos além de nós. E eu gosto de imaginar, de supor, esses humanos com muita complexidade de afetos e de sentimentos também.
Poucos de seus personagens em ‘Os Imortais’ têm nomes. Eles são evocados por características, como “o pequeno”, “o esquilo”, “a menina”, “o estrangeiro”, etc.
Paulliny Tort: O nome é um grande privilégio nessa sociedade que eu imaginei. Então somente o Homem e a Mulher, que são os guias, e o Velho e a Velha – viver muito é um grande mérito nesse mundo em que se morre muito –, têm nomes próprios.
Na verdade, mesmo hoje, embora na maioria das culturas humanas as pessoas tenham nomes próprios, existem nomes muito peculiares em algumas. Existem culturas em que seu nome próprio muda ao longo da vida. Existem culturas em que o nome próprio é uma melodia. Existem culturas em que não há nome próprio. É raro, mas existe. Então, a forma como eles nomeiam é também diferente da forma como a gente dá nome às pessoas.
Seu Homem com H maiúsculo rejeita a violência contra todas as espécies. Você buscou trazer uma ideia de masculinidade diferente, mais solidária, prevista já em um tempo em que essas questões não se colocavam da forma como se colocam hoje?
Paulliny Tort: Eu acho que eu volto na mesma resposta anterior: eu não tenho uma intenção clara. O Homem tem uma sensibilidade para a vida que alguns de nós têm. Algumas pessoas são mais sensíveis. Tem essa palavra que está meio gasta, que é “empatia” – eu acho que ela está se esvaziando um pouco.
Quando usamos as palavras de uma maneira meio leviana ou descuidada, elas vão se esvaziando de sentido. Hoje a gente fala muito “empatia, empatia, empatia”, mas talvez não esteja tão atento ao significado dessa palavra.
Imaginar a dor do outro, imaginar a condição do outro, mais uma vez, é algo que sei que não é uma exclusividade nossa. Acho que o Homem é uma figura que tem essa pele emocional mais fina, portanto o que machuca o outro, o que mexe com a vida do outro, mexe muito nele também.
A escritora Paulliny Tort, autora de ‘Os Imortais’. — Foto: Renato Parada/Divulgação Fósforo
Você faz um questionamento sobre aspectos predatórios do agronegócio em ‘Erva Brava’, e também aborda o vegetarianismo na sua obra. Como você vê esse modo de vida vegetariano e posições mais politizadas como o veganismo?
Paulliny Tort: Eu cresci com uma mãe que era vegetariana nos anos 80. Nos anos 90, eu também procurei por mim esse modo de vida. Acho que é muito interessante, acho bonito que a gente questione a nossa relação com outros seres vivos.
Mas eu acho que só o vegetarianismo e só o veganismo não nos dá, de partida, um mundo melhor. Se a mesma empresa que produz o hambúrguer bovino produz o hambúrguer de soja, e toda essa grana vai rolar dentro do mesmo cofre para depois ser distribuída em um sistema em que também vão se abater animais, não sei se faz muito sentido.
Essas formas de consumo que são um pouco predatórias. Esse sal que a gente manda trazer de Himalaia, esses produtos que vem de muito longe e que cruzam o planeta inteiro para que todo mundo queira consumir.
O açaí já começa a entrar em crise, porque está sendo distribuído no mundo inteiro. E você começa a ter monocultura de açaí também. Embora a gente tenha a associação com uma prática extrativista de populações tradicionais, a partir do momento em que entra em mercado muito sedento, isso também é predatório. Acho que o vegetarianismo em si, dentro desse sistema, não é uma resposta.
Embora eu não seja vegetariana nem vegana, acho que é uma sensibilidade e uma postura que eu respeito muito nas pessoas. Olhar para o outro e dizer ‘eu não quero a sua morte’ é um sentimento muito válido. Tem a minha simpatia.
A Orides Fontela, que é a autora homenageada dessa Flip, não queria ser chamada de poetisa, e sim de poeta. Ela dizia que não existe poesia feminina, só poesia. Existe literatura feminina, ou só literatura?
Paulliny Tort: Eu concordo. Inclusive, fiz uma mesa agora com a Andréa Del Fuego aqui na Flip em que ela fala que, se eu escrevo sobre animais, não quer dizer que eu esteja fazendo “literatura veterinária”. Ela falou num tom de brincadeira, jocoso, mas eu concordo e não acho que exista uma dicção feminina em temas próprios para mulheres.
Sei que algumas autoras discordam disso, mas eu entendo que a ficção é um lugar onde a gente pode justamente se encontrar além das nossas divisões, das nossas categorias.
É claro que o fato de eu ser uma mulher vai atravessar sempre o que eu escrevo e vai aparecer de alguma forma. Eu fui criada só por mulheres. Não tenho dúvida de que isso transborda para a minha escrita, seja no ‘Erva Brava’, seja em ‘Os Imortais’.
Acho que as mulheres, tanto do ‘Erva Brava’ quanto as neandertais de ‘Os Imortais’, têm muito em comum. Mas a ideia de que escreverei para defender um tipo de feminino ou uma dicção feminina, eu não acredito nisso.
Andréa del Fuego, Paulliny Tort e Micheline Alves (mediadora) na Flip 2026. — Foto: Flip
Como você vê a relação da nossa espécie com o mundo hoje? Estamos muito longe de onde deveríamos estar?
Paulliny Tort: Ah, isso não tenho dúvida. Eu acho que todo mundo está percebendo. A gente trata o mundo natural como se fosse uma coisa, não um sistema muito complexo do qual a gente faz parte com outras espécies.
E a ideia, às vezes religiosa, às vezes científica, de que a nossa espécie é de algum modo superior às outras, de que o mundo foi feito para o nosso bel prazer, traz uma perspectiva muito equivocada do nosso lugar no planeta.
Acho que [é preciso] diminuir um pouco a nossa própria importância. Claro que a nossa espécie é extraordinária, a gente faz coisas extraordinárias, mas reduzir um pouquinho, descer um degrau, para entender que sem todos os outros seres vai ser muito difícil a gente continuar por aqui, se não impossível.
Se a gente não frear essa forma, se não mudarmos como lidamos com os outros seres vivos, talvez a gente consiga eliminar nossa própria espécie e muitas outras, mas a vida vai continuar. Enquanto houver sol iluminando esse planeta, os outros animais, plantas, fungos e bactérias não vão depender de nós para começar uma nova jornada de vida.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.



