Entre duas bandeiras: como é a Copa de quem torce por mais de uma seleção

Cinco títulos, jogadores mundialmente conhecidos e muita tradição. Torcer para a seleção brasileira parece fácil, mas muitas pessoas ficam divididas quando chega a Copa do Mundo. Isso porque, no Brasil, milhares de famílias têm dupla nacionalidade e vivem um dilema: por qual país o coração bate mais forte?
Sofia Irazabal é filha de pais uruguaios e tenta se dividir entre a seleção brasileira e a celeste. Crescer com as duas culturas foi muito importante para a formação dela, mas Sofia aponta que, se Brasil e Uruguai se enfrentarem nesta Copa, já tem um escolhido:
“Acaba que eu torço pela Seleção Uruguai e pela Seleção Brasileira durante a Copa. Mas hoje a minha torcida é um pouco mais forte pelo Brasil, porque é o lugar onde eu nasci. Então, se acontecesse uma final entre Brasil e Uruguai, eu acho que eu torceria pelo Brasil, mas ficaria feliz de qualquer forma.”
O Brasil e a Argentina protagonizam uma das maiores rivalidades do futebol, com torcidas apaixonadas. Na casa da fisioterapeuta Paula Delfino, essa paixão é em dobro. Ela e a família deixaram a Argentina e vivem no Brasil há 20 anos.
Paula contou sobre a preparação antes de assistir a um jogo da Argentina e também o que a encanta na seleção brasileira:
“Na Argentina, nós temos o que a gente se chama de ‘caulas’, que são basicamente coisas que a gente faz para ter sorte, associado à superstição. Todo mundo tem lugar marcado, tem a a camisa que vai estar usando desde o primeiro jogo, a mesma comida de todo jogo. A seleção brasileira traz essa história de garra. Como dizem, né? O brasileir não desiste nunca à determinação. Uma pergunta que a gente sempre recebe: ‘ah, e quando o Brasil e a Argentina jogam juntos? Para quem que você torce? Quando é Brasil e a Argentina, [minha torcida] é para a Argentina.”
Nem milhares de quilômetros podem parar o coração da estudante Carolina Ryoko de torcer para o Brasil e para o Japão. A estudante nasceu em terras japonesas, mas cresceu no Brasil e explica que há uma grande ligação entre os jogadores de ambas as seleções.
O problema é que o Brasil enfrenta justamente o Japão na segunda fase da Copa do Mundo. Diante disso, Carolina deixa claro para quem vai a torcida dela:
“Desde o início, antes de a Copa começar, eu falei que esse ano eu ia torcer mais para o Japão. A seleção do Japão vem ficando muito forte ao longo dos anos. E nessa Copa eles estão jogando muito bem. Desde criança, eu assisto à Copa e sempre torci para as duas seleções. Os japoneses se inspiram muito no futebol brasileiro. Os japoneses amam o futebol brasileiro e amam o Zico”
Leda Maria da Costa, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirma que o futebol é fundamental para que outras culturas possam se integrar e se sentir bem-vindas no Brasil. O esporte se torna essencialmente uma ponte criada entre países:
“O futebol é um elemento de sociabilização fundamental em países como o Brasil. Falar de futebol é um assunto que cria uma comunicação em comum. E, no Brasil, isso realmente é muito forte. Você vai para outros países e isso não é tão comum assim. Essa ideia do Brasil ser o país do futebol não me parece ser tanto porque o brasileiro vai muito aos estádios ou porque o brasileiro torce mais do que os outros. Não é exatamente isso. Mas por que o Brasil é o país do futebol? Porque é um elemento de socialização e de identificação, tanto do brasileiro e da brasileira, tanto também de identificação individual, que é difícil você encontrar isso em outros países”.
No fim, para as famílias, a Copa do Mundo se torna uma grande oportunidade para unir a lembrança das origens e o agradecimento à terra que as acolheram.



